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segunda-feira, 28 de junho de 2010

PENSANDO À BOLINA, 29

Pedro Sinde




A saudade da rola
Nesta rola que ao longe arrulha há algo que me encanta e incanta: o louvor nostálgico, hino triste, lamento, lamento que soa a lamento de exilado. Na sua tristeza, no seu exílio, ela parece chamar o seu amado que deixou nas turcas terras que a viram nascer.
O ritmo do canto nocturnal da rola é, ele mesmo, essa lonjura – logo expressa pelo número três: Hu-hu-huuuuuuu. Hu, em árabe, é a forma do pronome que exprime o ausente, a terceira pessoa: ele. É esta a tua invocação saudosa e triste: ele-ele-eeeeeeele.
Choras, meiga rola, pela memória desse lugar que deixaste; lembras-te ainda do Paraíso.
O teu canto triste e saudoso é, no entanto, uma forma de louvor, uma forma de louvar; e essa forma é única, porque é tua e só tua.
Choro ao ouvir-te, pois entendo o que dizes e, como tu, também eu canto, mas cá por dentro, aberto para a imensidão do mundo que trago em mim. Também eu, como tu, sei que saí do Paraíso; saí ou caí. E lembro-me dessa terra da origem quando vejo o mar ou o bosque aqui ao pé; lembro-me do Paraíso quando te ouço o lamento.
E nas asas da Saudade quer acender-se em mim uma chama que chama à porta do Paraíso pelo anjo da espada ígnea: o meu coração quer entrar já lá, lá onde o espera o seu tesouro, porque, glosando, ali onde o teu tesouro está o teu coração acharás. É que para cá nascer deixei o coração lá; e não faço agora outra coisa senão chamá-lo, como tu chamas, nesse arrulhar triste, pelo teu amado das terras turcas.

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