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sexta-feira, 26 de junho de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 15

António Carlos Carvalho

Fiquei a pensar naquelas pedras da visita a Évora, as da anta do Zambujeiro e as do cromeleque dos Almendres. As pedras fazem-me pensar, tocam-me, mesmo quando não lhes toco. Ao contrário do betão, que me repele: o betão, para mim, é frio; a pedra é sempre quente – sim, quente, de uma maneira que os termómetros não registam, porque o calor da pedra atinge-me através do olhar.
Ao ver pedras, sobretudo as que são trabalhadas pelo Homem, sinto um calor interior, no coração. Sou imediatamente levado para um tempo em que, como dizia Luc Benoist, ninguém julgava poder pensar mais alto do que a sua mão.
Aquela anta e aquele cromeleque, tal como as outras construções megalíticas, suscitam sempre em mim as mesmas interrogações: quem era esta gente capaz de trabalhar tão bem a pedra sem aqueles instrumentos de metal que só muito mais tarde surgiram? Que significado teriam, para essa gente, estas construções? Quais eram realmente as suas funções? Como é que escolhiam os locais para erguer tais monumentos?

Cromeleque dos Almendres

Conheço um arqueólogo, especialista em megalitismo ibérico e professor universitário, que tem em casa imensos saquinhos de plástico carregados de objectos encontrados em locais como estes; uma noite, em casa dele, colocou um punhado de pontas de flecha feitas de quartzo na mão da minha filha Madalena; e depois deixou escapar: «Mesmo com as minhas máquinas, hoje, não consigo fazer coisas tão perfeitas». E eu não resisti a interpelá-lo: «Então, se é assim, porque é que não admites que estes povos não podiam ser “primitivos”, como vocês ensinam aos miúdos na universidade?» Ele encolheu os ombros e confessou que não podia fazer afirmações dessas no meio académico. Claro, pensei, os dogmas científicos (que se vieram substituir aos desacreditados dogmas religiosos) não permitem tais heresias. Mais tarde verifiquei que todos os autores que tentam romper esta carapaça dogmática estão fora do meio universitário.
O que me leva a pensar (faço isso sempre que visito estes sítios arqueológicos) que não sabemos nada para além do documento escrito: não sabemos ler as pedras, nem sequer as medievais... Perdemos essa linguagem, esse código. Só podemos fazer conjecturas e ter cautela para não cairmos no delírio interpretativo, seja ele o da influência extra-terrestre ou o do darwinismo histórico, também chamado progresso civilizacional.
Costumo dizer, por piada, que, se eu mandasse, mandava logo fazer escavações arqueológicas em todo o país, mandava desenterrar a História que jaz soterrada por aí.
E depois tinha muito cuidado, mas mesmo um extremo cuidado, na escolha dos intérpretes desses achados.
Piadas ou sonhos à parte, a verdade é que as antas, os cromeleques, os menhires estão aí, na nossa paisagem, como verdadeiras representações do mistério das nossas origens. Diante dessas pedras trabalhadas, na presença delas, somos obrigados a pensar que nos têm andado a ensinar uma História mal contada – afinal de contas, os primitivos somos nós.

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