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quarta-feira, 9 de março de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 126



Eduardo Aroso

CINZAS DO ESTADO, DOCE ESPERANÇA E O PORTUGAL DESEJADO

«Quando se espera muito tempo pode acontecer
aquilo que só raramente acontece».

Palavras de Musil,
citadas em artigo de João Bénard da Costa

Por mais confuso e duro que seja à nossa compreensão, só uma pátria que esteja destinada à sua inteira redenção (e, assim, necessariamente ao contributo na redenção do mundo) terá também que sentir o amargo fado na afronta e humilhação aos seus valores mais profundos que, diga-se, são pertença intemporal do Povo e não matéria para capricho leviano de decisões governamentais. Antes do incenso que eleva, o lento e doloroso fel; antes do coro dos heróis do espírito, as vozearias das gargantas efémeras; antes do Fado mais alto, o fado batido, corrido e gemido.
Não admira pois que países impulsionadores de civilização, como Portugal, Espanha e Grécia, neste ciclo mais baixo da História movido pelo materialismo da ideia sem ideal, estejam naquela condição dos actuais servos da gleba dos plutocratas cuja morada é em parte incerta. Resta-nos, ou melhor, acreditamos - sem restos de coisa alguma - na esperança bíblica quando nos fala dos últimos que serão primeiros. Também «o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça", todavia deixou o mais belo epitáfio sobre a morte, isto é, o poema à imortalidade.
Há certamente o desejado e o indesejado em cada um de nós; o que nos eleva e o que nos rebaixa. Portugal tem sido muito pródigo em figuras indesejadas, da política à cultura, passando pelas mais variadas actividades. Entenda-se a palavra naquilo que ao país, à nação e à pátria não importa. Por isso não espanta que se tenha criado um complexo cultural e social do Desejado, sendo motivo de riso ou desdém - mormente pela mainstream dos intelectuais portugueses. O alerta para este estado enfermiço já foi lançado por alguns, nesta frase resumida: «um país que não se pensa, não merece existir».
Antes, com e para além do pensamento especulativo, ou de uma «razão animada», como diria Álvaro Ribeiro, a esperança enquanto virtude tem um sentido, e se não apenas no plano religioso e confessional, para não corrermos riscos, deve, pelo menos, ser buscada no plano mítico. Durante séculos, a esperança foi massivamente procurada na doutrina das igrejas, fossem elas quais fossem, mas, na sua secularização, ela tem sido transferida para a política, onde, habilmente, a mostram atraente sem igual: mais certa que a salvação para sempre, a salvação eterna, apresenta-se ela a curto prazo para cerca de quatro ou cinco anos, voltando depois a aparecer sempre mais atraente.
Hoje é quarta-feira de cinzas, estado em que parece estar sempre Portugal, mas sempre com mais cinzas a cada dia que passa. Se não acreditássemos no mito da Fénix, não poderíamos estar na condição que, felizmente, abraçamos: ver já o voo libertador da Fénix renascendo, esse pássaro de fogo que nos recorda a frase de Agostinho da Silva «as línguas de fogo varrerão a Terra» no mesmo espírito de Joel «E há-de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões» (2:28).
Curiosamente, na frase de Musil, «quando se espera muito tempo pode acontecer aquilo que só raramente acontece», pode estar a nossa esperança. Ela é susceptível de conter tanto um princípio científico, seja o da indeterminação ou da incerteza de Heisenberg, da mesma maneira que uma sentença bíblica, tal aquela que compara o dia da vinda do Senhor como um ladrão que aparece de súbito dentro da escuridão. Quem virá então na noite escura da nossa lógica pouco clara, da nossa visão que porventura ainda não decifrou a «Hora», da nossa certeza da manhã presa ainda à «noite untuosa», como lhe chamou o poeta brasileiro Jorge de Lima?

9 de Março de 2011 (quarta-feira de cinzas)

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