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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

ENIGMAS, 4


Gravura de William Blake

“Por veneração, só porque era dedicado a ela, concentrei-me e rezei uma ave-maria. E então ainda no seu meio ou no fim, não me lembro, de súbito, uma força fortíssima do alto e vinda em ondas circulares, anéis, rodeou e apertou, docemente na sua força terrível, todo o meu ser no seu corpo todo, de alto a baixo. Ficou, permaneceu assim, possuindo-me totalmente; dentro de mim, gemia, tão forte era esse abraço circular; toda eu estava como que vibrando dentro de mim, animada por essa força; como energia, como me fazia sofrer até ao cerne de meu corpo e ao mesmo tempo me enchia de doçura. (…)
Mas a virgem é diferente: sua doçura é violenta e possessiva. E não desce e fica, ao nosso lado, separada invisível e presente: mas desce, do alto sobre nós, penetra-nos e rodeia-nos e toda ela é doce possessão de querer, corporalmente todo o nosso ser: nele, ela é uma vibração, tremor, que nos dá vida nova através da morte.
E ela é a Rainha dos Anjos: como eles desce helicoidalmente sobre nós, e nos rodeia. A Virgem é força, mas que vem e se exerce e se une a nós, num corpo vivo, possuindo-o. Como poder de encarnação. Ela é também alegria, mas terrível. E luz, mas luz da noite. E vida, da morte.
Se um dia puderes suportar sua força, seu abraço, saberás o que é nascer na morte. Porque ela é a rainha da vida e da morte. Por isso ela é a estrela da alva.”

Dalila Pereira da Costa in “Os Jardins da Alvorada”, Lello & Irmão - Editores, 1981, pág. 117

“Logo no inicio de Vida Nova, referindo o primeiro encontro com Beatriz, aparecida, quando tinha nove anos, num traje de cor vermelha, o poeta [Dante] diz que «o espírito vital que habita a secretíssima câmara do coração começou a latir com tanta força que se mostrava espantosamente nas menores pulsações» e acrescenta que, tremendo, ele próprio disse estas palavras: Ecce deus fortier me, qui veniens dominabitur mihi (Eis o deus mais forte do que eu que, vindo, me dominará). (…) «Sentia um maravilhoso tremor que começava no lado esquerdo do peito, e se derramava subitamente por todo o corpo»; «então, foram de tal modo aniquilados os meus espíritos pela força que o Amor adquiriu, vendo-me tão perto da gentilíssima mulher, que não continuaram em vida mais do que os espíritos visuais» (…) A visão próxima da Forma de Luz fê-lo tocar os confins da morte: «Pus os pé naquela parte da vida além da qual se não pode ir com a intenção de regressar».

António Telmo in “O Horóscopo de Portugal”, Guimarães Editores, 1997, pág. 129-131

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