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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 79




O Dia
Cynthia Guimarães Taveira

Despediram-se do amigo, tristes, entristecidos, com tristeza, tristemente e saíram tristonhos do cemitério. Um deles disse: -- Que a nossa amizade não acabe. E, já agora, a filosofia também não. Vamos beber um café e, depois, almoçar.
Assim fizeram aqueles amigos sob o sol escaldante, olhando para trás no caminho, em direcção ao cemitério que, estranhamente, e ainda ouvindo as palavras do amigo que deixavam, se transformava a pouco e pouco num lago sereníssimo. Águas refrescando o deserto do Alentejo.
Sentaram-se numa mesa que de tão comprida parecia medieval e, ainda trocavam as primeiras conversas quando, uma borboleta, chocantemente decidida, entrou pela sala e percorreu todos os lugares da mesa, e ainda aquele reservado para o amigo que tinha partido. “É a Psiquê“, ouviu-se. “Sim, é a Psiquê do nosso amigo“. E ela esvoaçava, interessada, curiosa, irrequieta, questionando as nossas fisionomias, os nossos gestos e o que estávamos a comer. A borboleta queria saber tudo e era o espírito de António Telmo. Até ao fim da refeição, lá esteve, acompanhando os seus amigos. Não os abandonando, não perdendo pitada do que acontecia. Recordaram-se as palavras de Nicolau Breyner: “No Alentejo tudo é possível”. Quando alguém morre o espírito do lugar vivifica-se.
Se nós soubéssemos pairar com uma ironia alegre sobre o mundo,
se nós soubéssemos voar e ver a terra toda com olhos de falcão,
se nós soubéssemos do lago que fica no coração do Alentejo,
se nós soubéssemos caçar a verdade por entre os arbustos da ilusão,
se nós soubéssemos da força dos toiros quando enfrentam o medo,
se nós soubéssemos dos mundos que deslizam sobre este,
se nós soubéssemos do diálogo com os anjos,
se nós soubéssemos rir do inevitável,
se nós soubéssemos reunir o aparentemente disperso,
se nós soubéssemos desenhar octógonos com a nossa própria vida,
se nós soubéssemos dar à luz as palavras vivendo dentro de outras,
se nós soubéssemos criar os nossos próprios mestres interiores,
então sim, seríamos dignos de alguma da Luz que brilhava em António Telmo. Tentemos pois, em sua honra, saber de todas estas coisas do céu e da terra.

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