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sexta-feira, 22 de maio de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 9

António Carlos Carvalho
Ainda a propósito da recente visita de Estado do Presidente da República à Turquia: não vi, não li, não ouvi (mas não se pode estar atento a tudo) referências ao mais importante, as relações entre os portugueses e a Turquia, que datam de vários séculos. Note-se, não falo das relações históricas entre os dois países, igualmente multiseculares, mas marcadas pela hostilidade até ao início do século XX (a Turquia era aliada da Alemanha na I Guerra); falo de muitos portugueses e do que eles viam na Turquia.
Abrimos o «Diálogo Evangélico» de João de Barros, escrito por volta de 1542, e lemos esta passagem:

«Evangelho – Para onde caminhas tu?

Talmude – Para Veneza, e daí para a Turquia.

Evangelho – Para a Turquia? De que nação és?

Talmude – Hebreu, povo escolhido de Deus.»

Para muitos portugueses, judeus, nessa época, e nas seguintes, era esse o destino natural do seu exílio forçado. Por várias razões. Porque viver sob domínio islâmico, ainda que com o estatuto de tolerados e com as restrições inerentes (imposto especial, limites na construção de sinagogas e de casas e no vestuário, proibição de montar a cavalo), era uma experiência que eles conheciam dos tempos da chamada «Idade de Ouro» islâmica na Península; porque preferiam passar por algumas dessas humilhações do que sofrer as perseguições e o medo dos inquisidores; porque a sua situação era, em muitos aspectos, semelhante à que tinham experimentado nos reinos cristãos até ao século XV; e porque sabiam que a sua presença em território turco convinha também ao sultão, que se aproveitava dos conhecimentos científicos, técnicos e económicos desses portugueses, assim como dos seus contactos comerciais e da rede de ligações que eles tinham com os países europeus. Sobretudo, agradava-lhes poderem praticar a sua religião sem ser em segredo e regerem-se pelas suas leis próprias em matéria religiosa ou em questões de matrimónios e de sucessão.


Judeus da Turquia

E assim os judeus portugueses exilados na Turquia acabaram por prestar importantes serviços ao Império Otomano, como médicos, diplomatas, financeiros, artesãos especializados, agricultores, fomentadores das indústrias têxtil e tipográfica (publicando obras de autores peninsulares que tinham levado consigo) e até mesmo cortesãos, líderes e protectores das suas comunidades.
Entre eles destacaram-se Grácia Nassi e Joseph Nassi.
Sobre Grácia Nassi, ou Grácia Mendes, ou Beatriz Luna, nascida em Lisboa em 1510, podemos ler um magnífico romance de Cathérine Clément, «A Senhora», ed. Asa (que a autora fez questão de lançar em Belmonte, terra de cripto-judeus) e um ensaio biográfico de Marianna Birnbaum, «A Longa Viagem de Gracia Mendes» (Edições 70). Um e outro contam-nos a extraordinária vida dessa mulher portuguesa que ficou conhecida como «A Senhora» e que salvou a vida a milhares de judeus portugueses e espanhóis, resgatando-os das garras dos perseguidores a peso de ouro. Foi também mecenas cultural – Samuel Usque dedicou-lhe «Consolação às Tribulações de Israel», edição patrocinada por ela em Ferrara –, fundou uma sinagoga e uma escola talmúdica em Constantinopla e apoiou a instalação de portugueses em Tiberíades.
Joseph Nassi, ou João Miques, também nascido em Lisboa no ano de 1524, era sobrinho e genro de Dona Grácia Nassi e tornou-se o favorito do sultão Selim II (de quem recebeu o título de duque de Naxos), chefiando a sua diplomacia.
Em 1553, o viajante alemão Dernschwam encontrou em Constantinopla 42 sinagogas e cerca de 15 mil judeus (sem contar com as mulheres e crianças), na sua maioria de origem peninsular.
Se estendermos o nosso olhar ao imenso Império Otomano, temos o caso especial de Salónica, onde ainda havia judeus de origem portuguesa nos anos 40 do século XX (e daí partiram para campos de concentração, onde foram exterminados – mas ninguém fala disso). No século XVI havia aí as congregações «Lisboa» e «Évora», a cidade era um centro cultural que rivalizava com Constantinopla e Safed, e o português e o espanhol eram as línguas correntes. Por lá passou Diogo Pires (Salomon Molkho) e lá viveu e morreu Amatus Lusitanus (João Rodrigues de Castelo Branco).
Só mais um pormenor: há poucos anos, o cônsul de Portugal em Istambul era um senhor de apelido... Abravanel, certamente da mesma família de Isaac e Judah Abravanel.
A História de Portugal é também feita de muitos exílios e exilados que nunca perderam a saudade da pátria perdida. Como esse outro Diogo Pires, poeta de Évora (assinava Didacus Pyrrhus Lusitanus ou Iacobus Flavius Eborensis), do século XVI, que morreu exilado em Ragusa (actual Dubrovnik) e que escrevia:
«(...) Então eu devo suportar um exílio longo e cruel? E de regresso nenhuma esperança me resta? (...) Mas bem longe, e separada por enorme extensão de terra, fica Évora; oh! terra conhecida da minha infância! Salve, terra, memória do meu nascimento! Salve, terra que meus olhos não mais verão! (...) Acaso porque celebro os solenes ritos e as cerimónias sagradas dos meus antepassados é que vagueio exilado da minha pátria? (...) Aqui gostaria eu que mão amiga enterrasse em paz os meus ossos, não tocados do ferro nem das negras brasas. E que não seja trabalhosa a construção do meu túmulo, mas tenha, no cimo do mármore, um pequeno poema:
“Aqui jaz Diogo, longe da cidade de Évora e de sua casa. Não lhe foi permitido guardar os membros em solo pátrio. Mas tu, que recolhes ao porto, ou levantas amarras da praia, diz, ó marinheiro, para sempre um adeus!”»

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