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segunda-feira, 4 de maio de 2009

NO CORAÇÃO DA ARTE, 2

Cynthia Guimarães Taveira


A Revelação
Foi no cinema que percebeu a natureza do seu dom. Cada dom tem uma natureza única. Ali, na tela de luz em movimento a vida de um pintor coreano, embriagado de vinho, mulheres e pintura era uma história de angústia. Da angústia inexplicável de quem pinta. No seu quarto, pela noite fora, ele pintava, já muito perto da loucura, e rasgava tudo em seguida, como se nele vivesse uma deusa da destruição e outra da criação e ambas medissem forças, e ambas ganhassem, e no fim, já fracas, essa tensão ficasse exactamente na mesma. Perene. Quem pinta conhece esse preto e branco, esse tudo ou nada, esse Deus e esse Vazio. No meio de papéis rasgados, o artista tinha pintado um bando de pássaros e, na escuridão da sala de cinema, o pintor teve uma revelação. Viu esse bando de pássaros como se visse um bando de pássaros pela primeira vez. Pintar é uma dupla revelação, a revelação da obra que está sempre para além do seu criador e a revelação de si próprio, pois também ele, nesses momentos, sabe que está para além dele próprio e aí, nesse suspiro de vida e morte, nesse breve momento, o transcendente está presente, omnipresente. Tudo é para além de nós. Até nós.

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