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terça-feira, 28 de julho de 2009

FANTASIAS GRÁTIS E IMAGINAÇÃO À VENDA, 1

Carlos Aurélio


1
Há poucos anos, a máquina reprodutiva da imaginação global pôs em desenhos desanimados Nossa Senhora de Paris, obra romanceada pela qual Victor Hugo fez de uma cidade um cenário subido a protagonista. Dizemos desanimados porque esses desenhos, ainda que espantosamente perfeitos, chegam a desanimar o leitor entusiasta dos livros de Victor Hugo, e também esvaziam a alma a qualquer das personagens vivas com que o romancista soube fecundar a nossa imaginação, seja a de Jean Valjean, que de presidiário chegou a santo, seja a de Gilliatt, esse herói engendrado na espuma vitoriosa da luta entre mares e céus. Ao caso, Quasímodo mereceria melhor sorte que descer a Corcunda de Notre-Dame, pois se no romance a bossa das costas não lhe impede o peito amoroso pela cigana Esmeralda, no próprio título dos desenhos da Disney a catedral parisiense, passando de actriz a atributo, fica tolhida do voo largo que a leve à veneração genuinamente religiosa. Dito em tese de teorema, os desenhos animados pela TV animam muito mal a imaginação e limitam-se a mexer com a fantasia sensitiva, imprimem na alma uma imagem exterior, feita e fabricada, anulando a expressão pessoal que emana do poder da palavra. A actual decadência verbal em todos os graus escolares, do infantil ao universitário, alia a falta de leitura com o excesso de desenhos animados e culmina no recurso exaustivo a onomatopeias, corolário que poupa demonstração.

Victor Hugo
Mal começa o Livro V do romance, Vítor Hugo faz dizer ao lascivo arcediago Cláudio Frollo uma frase enigmática, enquanto este, com a mão direita pega num livro e, com a esquerda, distende gesto largo até à Catedral de Nossa Senhora de Paris: «isto acabará com aquilo», o livro impresso destruirá o edifício, a Imprensa irá acabar com a Arquitectura, tese que o autor demonstrará com fulgor apologético nas páginas seguintes. Lido no original a frase dispara, fulminante: «ceci tuera cela». Como se vê, isto não vemos no filme da Disney, sendo assunto actualíssimo, que é o de se saber como difere a expressão artística para activar ou matar a imaginação humana. Na vida vulgar e corrente não existe em nós o vazio de imagens: onde estão umas não podem estar outras. Em pleno século XIX Victor Hugo profetizou portanto através de uma personagem do século XV, dizendo da decadência da arquitectura que, à época, era pouco mais que revivalista. Claro que no século XXI continua a haver arquitectura, mas é bom que a possamos aquilatar pelo denso simbolismo do Gótico e pelo hieratismo sóbrio que ainda hoje descobrimos na Nossa Senhora de Paris, em Chartres ou em Alcobaça. A arquitectura contemporânea esvaece em meros truques tecnológicos ao jeito de escultura abstracta, ou então, decai ao pretender arranhar-os-céus enquanto afasta o homem do chão e da natureza.
Ao contrário do que nos querem fazer crer, não é a luta de classes marxista ou a economia capitalista que fazem mover o mundo. A humanidade é sempre movida pelas ideias mesmo quando a ideia é não as ter, ou então, por essa outra que quer pôr a luta económica como centro da roda universal. E também é certo que, desde há muito, a Imprensa de que falava Victor Hugo tenha vindo a ser substituída pelo poder da TV. Resultado: na família que desaparece e na vida social que se pulveriza, tudo concorre para a anulação do poder da palavra, para a dementação geral. A Filosofia aceita entreter-se com as migalhas que sobram da Ciência como se as hipóteses e os teoremas das leis naturais não pudessem ser diferentemente pensados. As ideias escasseiam ou morrem na uniformização, a Política subalterniza-se, a tecnologia dita banalidades e, ao homem comum, disputam-lhe os abutres as imagens que às catadupas lhe inoculam. Sendo raríssimos os que pensam, a grande luta no mundo não é pois a da luta de classes, mas a que incide sobre o domínio da imaginação. Esta inclui aquela.
Entre as sensações do corpo e a intangível inteligência pura, entre o mundo sensível e os arquétipos inteligíveis, há uma alma que sofre, a do homem que deambula escravizado, acorrentado no fundo obscuro da Caverna de Platão, preso às imagens sensitivas que, às ocultas, o mundo da relatividade opinativa lhe faz passar atrás das costas. Menorizado nas palavras, amputado no pensamento, algo ou alguém lhe estimula essas imagens pela destreza de prodígios técnicos, através de uma panóplia de fantasias exteriores. A fantasia nasce da mera imaginação sensitiva, é excrescência e resíduo das sensações que, pela alma, não foram depuradas pela atenção, pelo exercício da inteligência não justificaram a razão de o homem ter a cabeça levantada e os olhos capazes de avistarem os céus. O étimo fala por si: fantasia é coisa de fogo-fátuo, elucubrações sobre fantasmas residuais, consequência de quem nunca se aventurou verdadeiramente a imaginar.

(continua)

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