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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



terça-feira, 7 de julho de 2009

NO CORAÇÃO DA ARTE, 11

Cynthia Guimarães Taveira



As Vestes
Klimt na fotografia veste um bata comprida e suja. Porém, pinta tecidos elaborados, dourados, ricos. As vestes de trabalho dos pintores assemelham-se ao hábito simples de Francisco de Assis. As vestes deles deveriam estar em exposição como a de São Francisco. Porque impressionam pela verdade. É dentro delas, normalmente largas, que os frágeis corpos se agitam. Elas guardam a memória da renúncia ao mundo pela imposição da criação de novos mundos. Todos os êxtases foram por essas fibras de tecido sentidas. As manchas de cor ficaram impressas como escórias de um fogo purificante. Os silêncios que ficam entre os compassos do pincel são essa distância que vai de mancha em mancha. Elas são o avesso do pintor e o seu suporte. O artista é um vagabundo planando acima do mundo. O centro e a periferia do círculo feito com o corpo. É impossível pintar sem dançar. É impossível pintar sem estar à vontade com o seu próprio corpo, sua primeira matéria-prima. Só soltando o corpo o pincel se solta. Só sabendo voar, a ave voa.


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