(os textos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores)

Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



domingo, 5 de abril de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 9

Duas cartas de Álvaro Ribeiro a Rafael Monteiro*


Lisboa, 27 de Dezembro de 1965

Exmo. Sr. Rafael Monteiro e
Prezado Confrade nas Letras:

Motivada é esta carta pela obrigação normal de lhe agradecer, quanto antes, a bela amabilidade das suas notícias e a gentil oferenda de um livro. Nesta fase última da minha vida sou pouco dado à epistolografia, mas perante factos de significação e valor, como o da sua missiva, não posso deixar de reagir com gratidão.
Folguei deveras com o anúncio de que o Rafael Monteiro vai elaborar, e concluir, um estudo sério sobre uma nova hipótese acerca da origem do fado, e queira Deus dar-lhe perseverança para cumprir tal dever, neste triste país onde é constante a elegia do não vale a pena. Se me expediu tão boa notícia, considerou também o meu exemplo de homem que persiste e não desiste, enquanto os outros se lamentam e desculpam.
Creio verosímil a sua hipótese acerca da origem e da essência do fado, com a correcção do dizer semita onde diz hebraico. A influência arábica foi poderosíssima na Península Ibérica, e também a fenícia…
O meu velho estudo sobre o fado foi um escrito de circunstância que não poderá ser útil ao trabalho do Rafael Monteiro. Quem lhe deu a informação nunca leu o texto, e errou se não mentiu. No entanto, como se trata de escrito publicado, gostosamente envio uma cópia. No mesmo semanário colaborou José Régio com um poema que reproduziu no respectivo livro. Convém não ignorar que também escreveram fados Afonso Lopes Vieira e António Botto.
Envio-lhe os “Parabéns”, ou o “Deus queira” (Oxalá) de bom augúrio e incitamento para o seu estudo. Com os melhores agradecimentos pela sua gentileza, subscrevo também os votos de Boas Festas e de Feliz Ano Novo de quem lhe manifesta tão sincera estima intelectual.

Álvaro Ribeiro
____________

Lisboa, 20 de Setembro de 1973
Exmo. Sr. Rafael Monteiro,
meu prezado Amigo:

Recebi, li e agradeço o seu curioso opúsculo sobre os painéis «de Nuno Gonçalves». Também li, recentemente, o belo estudo que intitulou de «Esclarecimento da história da vila piscatória de Sesimbra».
Bem sabe que muito aprecio os trabalhos históricos do Rafael Monteiro, com suas inteligentes hipóteses e suas ressurreições de vidas esquecidas. O tema dos painéis, além de misterioso e escabroso, é também perigoso para quem o abordar sem os indispensáveis sacramentos, pois causou já muitos desgostos a escritores ilustres e até uma morte por suicídio, mas eu louvo a coragem de quem é capaz de se sacrificar na defesa de causas perdidas. Perdida está a minha campanha em prol do ensino da filosofia portuguesa nas escolas públicas, mas nem por ver a desistência dos que outrora me acompanharam deixei alguma vez de insistir na seriedade do meu propósito.
O espírito arábico-judaico, por assim dizer sefardim, que subjaz na língua e na cultura portuguesas, moldado depois pela cleresia católico-romana, bem merece a atenção do Rafael Monteiro no anunciado estudo sobre o «convento» do Cabo Espichel, cuja publicação se aguarda com o maior interesse. Não é verdade que os cristãos portugueses impedissem que se pintasse a figura do judeu em igreja católica; contra essa objecção milita a abundância de azulejos com temas do Velho Testamento, a pintura de uma admirável e perfeita figura de rabino na igreja do Convento de Cristo em Tomar, e a extraordinária figura da árvore sefirótica, com seus dez judeus, num altar lateral da Igreja de S. Francisco em Estremoz. Grande parte, se não a maioria, dos sacerdotes portugueses protestavam em silêncio contra as barbaridades cartaginesas da Santa Inquisição, e protegeram quanto possível os marranos.
Nossos tempos são diferentes!... Vivemos num período de destruição política da Pátria, e até dos fundamentos históricos da Nacionalidade. O Governo nomeia deputados, governadores civis, presidentes das câmaras entre doutores que ignoram as raízes étnicas e o passado institucional dos povos sobre os quais vão exercer autoridade. Assim se descaracteriza a paisagem natural e social por obediência às instruções da O.C.D.E. e da U.N.E.S.C.O.
Bem hajam, pois, os escritores populares e patriotas que protestam contra a utopia da uniformização cultural num Mundo em que o espaço e o tempo diferenciam as manifestações da vida. Rafael Monteiro merece a gratidão dos sesimbrenses!...
Queira confiar sempre na estima intelectual que já alguns anos lhe dedica o seu amigo e admirador

Álvaro Ribeiro
* Originalmente publicadas em Sesimbra Eventos, n.º 35, Fevereiro/Março de 2005.

Sem comentários:

Publicar um comentário