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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 3


“Breve, uma outra corrente espiritual, esta de ordem religiosa, mais vasta e penetrante, veio completar, transcender, exaltar o ideal de Cavalaria, acentuando-lhe as tendências democráticas e voltando-se para a Natureza, como manifestação de Deus.
“Antes do advento de S. Francisco de Assis, o catolicismo não facilitava o conhecimento e a posse da Terra pelo homem. Cristo imobilizava-se na Cruz. O ideal místico era o refúgio, a contemplação, a partilha do Calvário pelo crente.
(...)
"[Com o franciscanismo] Cristo ia baixar da Cruz para de novo percorrer o mundo.

(...)

“O estabelecimento das Ordens mendicantes – a dos Franciscanos, fundada (1209) por um italiano de educação francesa, S. Francisco de Assis, e a dos Dominicanos, fundada (1215) por um espanhol, S. Domingos – marca data primacialíssima, não só na História da Igreja, mas da Humanidade. Formadas num ambiente de protesto espiritual e popular, provocado pela indisciplina, a violência e a soltura dos costumes que então lavrava no clero e nas Ordens monásticas, propunham-se as duas Ordens novas reformar a vida religiosa pelo voto da pobreza e o contacto directo com o povo. Mas os dominicanos, como genuínos representantes da ortodoxia espanhola, ainda que obedecendo a uma regra semelhante, tornaram-se desde logo os defensores ardentes do princípio da autoridade, em cujo nome se deram ao combate e ao extermínio dos hereges, tornando-se mais tarde os mentores dos príncipes e dos grandes senhores. Ao invés, os franciscanos, seus adversários declarados, não só mostraram sempre um espírito mais liberal e tolerante, mas criaram uma religião para o povo: foram mitigadores zelosos das suas aflições e defensores dos seus direitos denegados, por cuja vitória não hesitaram em imiscuir-se muitas vezes em seus movimentos de revolta.

(...)

“Mais ainda, o franciscanismo tem a ambição de dilatar-se rapidamente a toda a Humanidade; e, desde os primeiros anos que seguem a fundação da Ordem, uma das suas grandes preocupações será a de levar o ideal cristão aos infiéis, tanto da Europa, como da África e da Ásia.

“Finalmente, S.- Francisco de Assis e os seus continuadores – e este é o traço espiritual mais característico da Ordem – aproximam o homem juntamente da Divindade e da Natureza. Cristo, segundo eles, é o irmão dos homens, sequioso de os proteger e consolar, e a Virgem, cujo culto difundiram e exaltaram, a mãe misericordiosa dos homens. Com o culto do Menino Jesus e a liturgia encantadora do presépio, criação do santo de Assis, o franciscanismo contribuiu para exaltar o amor à criança, como já contribuíra, com o culto da Virgem, para a dignificação da Mulher. Do mesmo passo, aves, árvores e estrelas são também irmãos do homem. Um sopro de amor emana de Deus e funde na mesma fraternidade o homem e a Natureza.

(...)

“A dignidade do trabalho que o povo já conquistara nas lutas sociais, vem o franciscanismo coroar duma espécie de dignidade religiosa, tanto mais que as classes populares estavam, pela condição do seu trabalho, fundidas, mais que nenhuma outra, com a Natureza.”

Jaime Cortesão

in O Humanismo Universalista dos Portugueses, pp. 37-42.

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