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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

LEITURAS DE EDUARDO AROSO


REPOR A LUZ de António Salvado

Eduardo Aroso
Viseu, 26-12-2011


Nunca o amor é débil quando a chama
que o alimenta fulge apaixonada
com faúlhas ardentes que o amparam
e o mantêm fiéis acarinhando-o.
(…)
ressuscita animoso e complacente
porque à fraqueza entrega novo sangue
que posto a circular mais o inflama.
                                                         A.S.

Com generosa dedicatória, recebi do poeta António Salvado uma das suas mais recentes obras, intitulada REPOR A LUZ. Dádiva – que neste tempo natalício se junta a outras - sendo todavia, ela mesmo, o melhor da pulsão criativa do poeta. Os Magos ofereceram ao Menino o que de melhor tinham, como essência da alma, e quando acontece a um poeta derramar pelos outros os seus melhores versos – afinal, o seu ouro, incenso e mirra – está, salvo a devida distância, a realizar o mesmo acto simbólico dos Reis do Oriente, e também como aquele outro o da oblação das primícias nos antigos rituais, reconhecimento humano pela eterna e cíclica dádiva, consequência da paternidade espiritual sempre vigilante às necessidades do homem. Noutra imagem, mais prosaica mas não menos verdadeira, a essência do fruto é alheia decerto ao modo como este nos pode chegar às mãos. Não foi porém, como disse, o caso de REPOR A LUZ, carregado de um traço de afecto e amizade, antecedendo os luminosos poemas, qual aroma de brisa que chega ao ansioso caminhante quase a atingir o miradouro alto, para aplacar a sua sede de olhar o longe…
O título do livro, REPOR A LUZ, por si só já nos remete à meditação no que hodiernamente se cruza, com insanidade, no homem: a desatenção entre luz e cor, mas muito principalmente entre a luz artificial que preenche a urbe, nas vinte e quatro horas, e a natural que nos permite a absorção da vitamina D e metabolismos vários. Todavia, o maior dos benefícios da luz do sol é o de nos fazer pensar que, enquanto fonte única, é a âncora de última instância para todos os estados caóticos que o ser humano pode desencadear, seja no plano físico, emocional ou mental. Os mistérios da luz sempre estiveram nas preocupações metafísicas e científicas de altos espíritos como, por exemplo, Goethe que concluiu que a luz é invisível, sendo o que vemos como luz, apenas a “sua sombra”. Não nos deve causar admiração, pois João, o Amado discípulo, disse «Deus é luz», e todas as passagens das Escrituras são unânimes ao afirmarem que «Deus é espírito» e só em espírito dever ser adorado.
O facto do presente livro de António Salvado não constituir por assim dizer preocupação axial, neste sentido místico e teológico, pois ao poeta importa substancialmente a poesia, remete-nos todavia, com a subtileza de uma lírica superior, para a questão da luz como consciência. Ou seja, o grau de consciência sempre definiu o ser humano por dentro, imune ao enganador e porventura efémero exterior. Creio que o título do livro significa essencialmente para o poeta, enquanto artífice da sua poesia, a luz da sua continuidade criativa consciente, e por estas palavras evitamos dizer persistente ou insistente, quase em batalhadora forma ou jeito dialéctico. Um rio, deslizando, por certo não sabe que desliza, mas o poeta autor de REPOR A LUZ está consciente que tanto é possível andar nela como dela se afastar, nem que seja temporariamente.
O pouco tempo que tive para a (s) leitura (s) que o livro merece, permitiu-me todavia colher uma impressão que certamente se fará mais clara num futuro breve, mas que, desde já, não deixa dúvidas: o poeta, glosando na generalidade os seus temas habituais (Não fugirei de mim, assim começa um dos seus poemas) ao subir, digamos assim, um grau mais acima, um pouco mais na inefável escada da sua consciência de luz, acaba inevitavelmente por alcançar uma poesia mais luminosa na medida em que vê, revê, vive e revive lugares e acontecimentos com olhos para outra luz ou, na inversa, uma visão adaptada à única luz. Seja como for, é cada vez mais consciente de que o essencial – para o qual deseja sempre mais luz – foi por ele bem traçado e não pode ter descanso, salvo os naturais erros de percurso. «Por vezes súbito engano/ a voltar atrás obriga/ mas alento retomando:/ em frente por outra via».
No que venho acompanhando durante vários anos da poesia de António Salvado – que será sempre pouco para tão extensa, formada e firmada obra – ainda que tenha que me “banhar” mais vezes em REPOR A LUZ, a impressão é a de que estamos perante uma das suas obras poéticas mais fluentes, talvez, mas não só, pela temática da luz, versos vivos e movidos como são as próprias nuances da luz, e quando digo fluentes tenho sempre presente a experiência do que é passar várias vezes por caminhos por onde andei em tempos outros. Poesia, dir-se-ia imunizada, a de António Salvado, isto é, em que nada parece poder interromper (e corromper) o fluxo que começando só naturalmente cessa, sem intromissão de elementos estranhos ao próprio poema. «Rasga a penumbra, vê imensidades/ em cada gesto próximo de ti/ e cruza o teu olhar com outro olhar/ e aperta a mão que te será estendida/. Alinha os passos com um par igual/ e caminhando pela mesma via/ troquem palavras mas que sejam frases/ com devoto calor reconstruídas.» (…)
REPOR A LUZ constitui uma renovação do compromisso do poeta com o poeta, porque repor a luz na nossa vida significa ter consciência de que, na imagem da árvore, não deverá existir cisão entre folhas, troncos e raiz. A essência do amor, isto é, do amor imanente – para além do qual pouco ou nada sabemos – é certamente o da entrega, nesse sublime e íntimo ritual interior no qual encontramos o (s) outro (s), por muitos e diversos modos. É o que nos diz o primeiro (como poderia ser o último) poema deste livro de António salvado: autêntico porque nele o outro também mora.


AINDA QUE SEM NADA…

Ainda que sem nada ofereço amparo
a quem me roga um laivo de conforto
e nesta via branda d’humildade
procuro caminhar silencioso,
porque dei tudo sem cobrar migalha
que me curasse a ânsia de repor
a luz onde faltou o cintilar
da confiança num porvir mais doce.

E humilhado também voltei a cara
fingindo alheamento ao desconforto
causado por pasquins de mal-supor.

Continua porém a minha dádiva –
que só não é vingança funda clara,
porque em mim vela e sempre o mesmo rosto.

António Salvado

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