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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



domingo, 29 de novembro de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 40

Deste lado do mar de Sesimbra*
Pedro Martins

Ao Elísio Gala


Conheci Orlando Vitorino pouco tempo antes de ele partir. Foi em Estremoz, longe do centro, no Bairro da Salsinha. Conheci-o numa manhã de domingo, num café pacato, com a Serra d’Ossa ao fundo. Fui ali levado pelo Inácio Ballesteros. Logo percebi que a reunião no local era costumada. Orlando Vitorino já lá se encontrava. António Telmo chegaria pouco depois.
Àquela hora, manhã alta, chegado do Sul, o sol vinha da serra e insinuava-se na sala umbrosa. Pairava uma luz tépida, sem clamor. Afável, sorridente, algo curioso, Orlando Vitorino acolheu-me com bonomia. Impressionou-me a sua serenidade, definitiva, quase derradeira. Disse-lhe que era de Lisboa, que vivia em Sesimbra, e que frequentava a tertúlia de seu irmão em Estremoz. A alusão à Piscosa valeu por um santo-e-senha. Agradado, Orlando recordou histórias da sua juventude, quis saber de pessoas, evocou-me lugares.
Em dada altura, o Inácio Ballesteros fez inflectir a conversa para Sampaio Bruno, versando um episódio de O Encoberto, um dos muitos trechos anti-clericais com que o leitor se depara nas páginas deste livro. A talho de foice, e para minha surpresa, o autor de Tongatabu afirmou que Eça de Queirós era o maior escritor católico português. Com uma seriedade imperturbável, sem trair o mais leve sinal de ironia, foi desfiando um ror de argumentos na demonstração da sua tese. Nunca serei capaz de desfazer a dúvida que me deixou.
Meses depois, fiz-lhe chegar, pelo João Tavares, algumas publicações sobre Sesimbra, em cuja edição eu estivera envolvido. Eram livros de velhos amigos, como António Reis Marques, Rafael Monteiro e José Preto. Quando o reencontrei no café Mira Serra, deu-me conta do agrado que a leitura daquelas obras lhe causara, e ofereceu-me um exemplar de O Plutocrata, um pequeno livro seu que viera a lume alguns anos antes, sob o pseudónimo de Ernesto Palma. Abri-o no frontispício, folheei-o, detive-me na dedicatória. Ali posta como um sinal, era-me devolvida a palavra onde as ondas sorriem e a luz se demora. Escrevera ele: Ao Pedro Martins, deste lado do mar de Sesimbra.
Por essa altura, corria o ano de 2003, estava eu a meio do primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Orlando Vitorino elogiou o escritor francês. Mas logo protestei interromper a sua leitura, para dar a atenção devida ao livrinho que me fora oferecido. Não faltei ao prometido. E fui surpreendido por um texto breve e genial, acutilante e sagaz, onde a arte da palavra e a luz do pensamento destroçam ideias feitas. Ao relê-lo hoje, descubro-o – e isto é terrível – mais actual do que nunca, e sei que uma palavra define o seu autor: liberdade.
A liberdade, eis o traço de união que cinge, num abraço, os homens da Filosofia Portuguesa. Orlando Vitorino conquistou-a e defendeu-a, entregando-se a um combate sem tréguas, provavelmente perdido, mas que tinha de ser travado. Raros homens do espírito ousaram uma luta assim, pertinaz, porfiada, sem temor. Nisso esteve a sua virtude. Nisso está a sua saudade. Nisso estará a sua glória.
Não voltei a vê-lo. Daí a poucos meses, em Dezembro, no lançamento do Mapa Metafísico da Europa, do Carlos Aurélio, soube que estava muito doente. Dias depois, telefonei a António Telmo. Atendeu-me a sua mulher. Pediu-me desculpa, mas tinha de desligar. Acompanhava o cunhado à sua última morada.
Não voltei a vê-lo. E perguntei-me se o não teria conhecido demasiado tarde. Logo em Janeiro do ano seguinte, iniciei colaboração efémera num jornal do concelho de Sesimbra. Evoquei Orlando na primeira das cinco crónicas mensais que ali publiquei. Ao escrevê-la, dei-me conta de que, afinal, o conheci demasiado cedo. E parti em busca do tempo perdido, neste lado da vida, deste lado do mar de Sesimbra…
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* Aqui republico, com levíssimas alterações (só a dedicatória constitui novidade), parte de um artigo originalmente destinado a uma evocação plural de Orlando Vitorino, numa outra publicação. Ontem, durante o lançamento da nova edição de O Plutocrata, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, tive oportunidade de, em público ou em privado, me referir a alguns dos episódios acabados de contar ao leitor. Por razões óbvias, dadas as circunstâncias de tempo, lugar e modo – as mesmas que ora me impelem a dar, de novo, este escrito à letra de forma.

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