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domingo, 18 de outubro de 2009

O CAMINHO DO CAMINHO, 7

Cynthia Guimarães Taveira


Os artistas visuais e as artes plásticas e as palavras
Os primeiros, auto denominando-se artistas visuais, pertencem certamente ao futuro, o mesmo retratado por Steven Spielberg no filme Relatório Minoritário. Esta saga visual é implacável nos avisos que faz ao perigo da supremacia do sentido da visão face aos outros. Para quem ainda não viu o filme (e que vale mesmo a pena ver), a acção passa-se num futuro. Ou antes em dois futuros, um que acontece naturalmente e o outro previsível, ou seja, visto, em jeito de revelações, por três seres (que pouco têm de humano pela estranha forma de vida) “para psicológicos”, embebidos num liquido (paralelismo subtil com o liquido amniótico), numa condição de êxtase permanente com o senão de viverem num estado parecido com o embrionário (pouco nascidos ainda, portanto). A polícia, nesse filme, utiliza estes três seres para, dessa forma, poderem prever o crime e evitá-lo, e, mais perverso, prenderem o criminoso antes que este cometa o crime, com a certeza indiscutível de que este foi visto no futuro anunciado nas imagens reveladas e partilhadas por uma elite de vigilantes e geradas no cérebro dos três mutantes que nem cabelo têm sequer. A acção começa quando um polícia se vê a si próprio a cometer um crime e aí é iniciada a fuga alucinante, a fuga de um futuro. Um futuro no qual a identificação dos seres humanos é elaborada a partir da íris. Olhando para os cartazes publicitários espalhados em centros comerciais, as personagens desses cartazes, que estão em constante movimento, reconhecem cada uma das pessoas individualmente e dirigem a sua propaganda para um determinado nome, personalizando, assim, as campanhas publicitárias. Uma das muitas ironias do filme está no facto de, a páginas tantas, ou antes a fotogramas tantos, o tal policia fugitivo ter de roubar um olho para que não o identifiquem. E o olho cai e rebola, e escorrega-lhe das mãos para seu desespero e para gargalhada geral do público, que só assim, no ridículo extremo, se apercebe (quando está para isso), da sociedade de loucos em que vivemos, na qual o olho, a imagem descartável e totalitária, nos domina os dias e nos adormece a consciência, essa sim feita de palavras. Claro que o filme é muito bem rematado quando, no final, os três profetas embrionários são enfim salvos desse pesadelo constante das imagens e se refugiam numa casa de campo, toda de madeira, por fora e por dentro também, uma vez que é forrada a estantes, e onde passam o tempo a ler, perto das palavras e longe das imagens. Depois de um filme destes duvido que algum artista queira ser chamado de “artista visual”.

Os segundos são os artistas plásticos. Não sei quem escolheu tal nome mas acertou em cheio, pois a arte contemporânea, na sua grande maioria, é de facto de plástico. Ora o plástico vem do petróleo que, curiosamente, é o chamado “ouro negro”. Imagem invertida do ouro real, de dourado nada tem, de sólido também não. Antes é uma substância viscosa, o ultimo grau da putrefacção e o último grito (talvez desesperado) da moda das matérias-primas. Nada de mais pois há arte, ou antes dita arte, feita com lixo, entulho, latas batidas e ferrugentas, bidões desalmados, todo o género de materiais, do mais podre ao mais que morto, acabando mesmo na contemplação de cadáveres humanos ou na contemplação de animais em agonia. Assim, esse petróleo, pai do plástico, parece ser o nome adequado a esta arte. Tão volátil quanto ele, tão negra e poluidora tão longe desse outro ouro que em termos alquímicos, a chamada Arte Real, é associado ao espírito e à sua corporização e à espiritualização do corpo. É sabido que quanto mais cirurgias plásticas fazem as mulheres mais parecidas umas com as outras ficam e mais vão perdendo a sua identidade e consequentemente a sua alma. A palavra plástico, que gera também plasticidade (como transfiguração da superfície sem contudo perder as propriedades próprias - levando à negação da transformação e transmutação) parece estar condenada a conduzir-nos à morte, até pelos produtos poluentes que gera para o planeta.

O vazio das duas palavras, “visual” e “plástico” é total. Fiquemo-nos por artistas, por pintores, por mestres pintores. Simplesmente, e atentos, viventes nessa nomenclatura antiga, vejamos, ou antes escutemos. Ver é assistir à revelação do óbvio numa atitude passiva. Escutar já nos compromete pois estão em jogo palavras, palavras que ecoam e estimulam o nosso pensar. Aquele que é individual e só nosso.

Só entendemos as artes pictóricas quando, na nossa cabeça, ecoam palavras. Adjectivos na maioria das vezes, pensamentos, associações. Se o objecto de arte for terrivelmente diabólico, aquilo que temos é, no início, um choque quase físico. Uma repulsa natural, quase instintiva. Assim, perante a representação do horror, sobretudo do horror humano, o choque sobrepõe-se à consciência. Perante o belo, o sublime, a representação do maior que nós, a atitude não é de choque horrorizado, antes pausa, contemplação, meditação, desdobramento da obra na nossa alma na nossa consciência, porque tal meditação necessita de palavras e a palavra não é mais do que a consciência, a nossa música, o nosso compasso, fugitivo do abstracto musical porque sempre procurando a precisão, a verdade fiel ao sentimento tido à memória distante que regressa, ao desejo que se instala no futuro.

No misticismo há uma natural relação, que é também uma sobrenatural intuição, com a imagem e a música. Duas linguagens directas e suficientemente abstractas para delas ir retirando ao longo da vida todo um rol de palavras que buscam incessantemente a totalidade semântica desse abstracto revelado. Basta ler uma experiência mística de Dalila P. da Costa e sua interpretação para percebermos que essa experiência é inesgotável como fonte da palavras e sentidos à medida que se caminha pelo tempo.

A palavra é um meio, um modo de tradução mas também um veículo de uma consciência ciente de todas as suas hesitações e a consciência é uma mais-valia pois é ela que nos faz antever, pressentir, intuir, a existência de uma alma. Deste modo a palavra é a consciência das nações, a consciência da identidade de um povo. A prova viva da sua distinção, da sua originalidade, da sua capacidade de transmitir o seu verdadeiro ser. Quando as línguas se deixam empobrecer, degenerar e aglutinar em demasia com outras é uma alma que vai morrendo pois já não tem como comunicar. Exactamente como uma pessoa que em vez de expandir os seus dons os diminua, os faça extinguir, a pouco e pouco, como uma chama que se apaga, e deixe de ser ela por influência ou pressão de um outro indivíduo. As nações são almas, já dizia Fernando Pessoa, e são-no de facto. Volúveis, frágeis, únicas e preciosas. A língua, o seu modo de expressão e a garantia da sua continuidade.

Todas as línguas do mundo dão, provavelmente, todas as tonalidades das almas, suas cores vibrando em sentimentos, seus apelos e angústias. Todas as línguas do mundo serão suficientes para abarcar a alma do mundo?

E a alma está situada no centro do coração. Chegámos, enfim a um comboio útil de palavras: palavra - consciência - alma - coração. Pois é, como dizem as crianças. É curioso porque tendem a dizer “pois é?” em vez de “não é?”, substituindo uma negativa por uma afirmação, juntando-a ao verbo ser. Pois é, e o Espírito Santo que fala pela boca delas sopra, muitas vezes, sob a forma de palavras. Normalmente poucas palavras, mas quase indiscutíveis, certeiras, atingindo em simultâneo o nosso coração e a nossa capacidade de raciocinar. As crianças, em determinadas alturas constatam, olham-nos como se nos despissem com o olhar e dizem a verdade, pela boca delas, palavras vindas de um espírito que lhes é maior. Assim como os loucos, ou ébrios, ou velhos cegos, ou alguém que esteja à margem vivendo uma espécie de semi-consciência. semi-alma, semi-palavras. As margens do mundo observam-no e esperam a oportunidade certa para o mudar…

Pois, é por elas, nesse estado semi, mais vazio que cheio, que a palavra se manifesta de forma poderosa. O Espírito Santo requer um vazio, o tal desapego de si, por quem sopra e a quem é dirigido. Quando o corpo não se mexe, quando está paralisado, quando de nem um movimento ou de uma lágrima é capaz, aquilo que lhe resta são as palavras. As palavras dentro dele, o último reduto, a última forma de consciência. É necessário passar por essa experiência para se compreender a sua força e a forma como elas e a consciência formam um todo.

No yoga dos indianos, a ascese faz-se em crescendo, e esse crescendo é inversamente proporcional à quantidade de imagens que atravessam a nossa mente nos variados estados de meditação. Curiosa fórmula esta num país que vive de imagens e de deuses, de Bollywood’s e de carros pintados. Um país que usa e abusa das imagens mas que, no seu íntimo, parece intuir o factor ilusório dessas imagens e a sua necessidade numa viagem sem que estas sejam, no entanto, um objectivo em si.

As imagens deveriam ser tratadas com pinças, tal a sua delicadeza e tal a capacidade que possuem de adormecer a consciência, ou seja a alma. Vivemos dormindo, poluídos de imagens. Olhamos e não vimos, olhamos e não vivemos, olhamos e não recordamos, por bem lá no fundo não vivermos (a facilidade com que nos esquecemos de um filme, por exemplo, é significativa). Por outro lado a palavra, alma gémea da consciência, tem como característica essa procura do rigor, essa tentativa de acertar em cheio no sentido preciso para o qual tende a consciência. Mas a palavra é mais, é tão só a parte material de uma outra linguagem, aquela que reside no coração. Essa sim a linguagem das aves muitas vezes confundida com trocadilhos alquímicos, confusão em parte alimentada por Fulcanelli. O trocadilho revela a disponibilidade da alma para associar aquilo que aparentemente não é associável, a disponibilidade para o riso, a disponibilidade para trocar os sentidos, uma tendência para o génio. O trocadilho revela todas as hesitações possíveis da alma. Os caminhos semânticos atropelam-se uns nos outros e esta é uma das condições para o entendimento do símbolo. O trocadilho abre portas mas não é a porta. Na Língua dos Pássaros, não há propriamente palavras porque esta é uma pré-linguagem e uma metalinguagem em simultâneo. Uma mãe sabe como o seu bebé se sente, porque sabe, porque dois corações estão unidos. Ou os amantes que sentem em simultâneo sintonizando o pulsar do seu coração. A Língua dos Pássaros é o canto doce do coração. E não há palavras. Mas há consciência e alma e, sobretudo, amor.

A primeiríssima língua é afinal aquela do amor, a mesma com que Deus connosco fala e aquela com que falamos com Ele. Nessa língua não há evocação. Há apenas oração. Na evocação Deus ainda está longe e há que chamá-Lo, na oração caminha-se já com Ele. É na união tão desejada dessas duas consciências, a do alto e a do baixo que é possível o nascimento da arte. Por tudo isto, o visual, o plástico, ao fugirem da consciência e da palavra, nada de novo poderão fazer nascer debaixo do sol. Apenas na palavra e da palavra algo de novo poderá nascer. Até nós.

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