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terça-feira, 8 de junho de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 62

Mais um dia de Camões na Ilha do Desterro
Eduardo Aroso

A Morte de Camões, de Domingos António de Sequeira


«Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,
Senão o que somente mal deseja».
Luís de Camões, Os Lusíadas (Canto IX, estrofe 29)


Alguns pensadores portugueses têm acentuado o tema da Esperança, quer em contexto mariano – tal é o caso de Nossa Senhora da Esperança de Vila Viçosa –, seja numa linha mais filosófica de certa escatologia messiânica que, de algum modo, nos tem tocado como destino. Facilmente associamos o sentido de esperança ao Oriente ou Levante, lugar de onde caminha certeiro o astro-rei, na certeza de iluminar e aquecer toda a Terra. Todavia, uma ideia de esperança de mais alcance é aquela que temos vindo a gerar no lugar onde o sol morre no ocidente, sendo o mar a última sombra que nos mostra. Esperança radical que atravessa a morte, para ir além dela. Dir-se-ia uma esperança de finisterra, ao fim e ao cabo, a esperança do «etéreo paraíso», quando a terra (ou a História em linha recta) acaba para nos devolver ao céu. Camões, descrevendo a Ilha dos Amores, mostra-nos essa inteira possibilidade: a nossa que é também a de todos os habitantes da esfera poderem ser guiados por Vénus; assim o consintam. Lá no fundo das almas e dos tempos espera-se a secreta e impoluta justiça divina «Porque dos feitos grandes, da ousadia/ Forte e famosa, o mundo está guardando/ O prémio lá no fim, bem merecido,/ Com fama grande e nome alto e subido.» Os Lusíadas (Canto IX, estrofe 88).
Hoje, no que resta deste rectângulo litoral ou «nesga de terra», como escreveu Torga, e, dizemos nós, que passou de jardim à beira-mar plantado a jardim amarfanhado, é bem urgente a esperança, todavia acompanhada da acção possível. Acção possível na hora possível, pois, quantas vezes, a melhor ousadia é a inacção que, em alternância, desencadeia maior força no mundo do pensamento. Mas seja como for, esperança que nos saiba como a bica de água fresca à beira da estrada, bem entendido daquela por onde ainda vamos a pé e nos podemos sentar à sombra de uma árvore.
A três dias de mais um 10 de Junho, comemorado nesta Ilha do Desterro, apenas ligada à Europa por um istmo não se sabe de quê, é-nos difícil fazer um exercício de raciocínio tentando adivinhar qual será o discurso dos oradores oficiais na solenidade do Dia, que será um dia de prémios que - é suposto - deverão dignificar a República, nestes 100 anos de idade, mas que, não sendo por causa da idade, hoje é uma república “sem rei nem roque”. Serão os oradores oficiais os formados nas “Novas Oportunidades”, ou serão os descendentes ou colaterais dos velhos conhecidos que dizem: «Uma Pátria não deve nada a ninguém em particular. Ela deve tudo a todos. Nem a Camões, Portugal, que ele encadernou para a eternidade, devia alguma coisa.» (…) «Já se viu um poema “épico” assim tão triste, tão heroicamente triste ou tristemente heróico, simultaneamente sinfonia e requiem?» (Eduardo Lourenço, 1978)? Parece assim ter feito escola esta doutrina, pois hoje está à vista que Portugal deve tanto aos que se esforçam como aos malfeitores! Nas últimas décadas, os altos responsáveis pela política e pela cultura de Portugal concluíram, eles sim, os últimos compassos do nosso requiem! Mas ainda há Esperança de profundis à guisa do poeta de Mensagem: «O inteiro mar, ou a orla vã desfeita -/ O todo, ou o seu nada.» Cabe-nos assumi-la, oculta ou expressamente, na mesma vestimenta da fé e, quando se tornar necessário, o ímpeto do guerreiro ou soldado de luz. Porque Camões também o foi e símbolo é.
Portugal, 7 de Junho de 2010, dia da Graça de Deus e da sempre imanência do Espírito Santo

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