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sábado, 7 de maio de 2011

A MARGINALIDADE



















"O ser humano singular, que pensa por sua conta e risco e, mais, que tem algo a mostrar (dar) aos outros, nada consegue hoje, apesar de ter liberdade para o fazer. Terá que ser membro de um grupo, associação ou partido, que tenha, como é evidente, número de contribuinte. Já Fernando Pessoa dizia há quase cem anos, mais ou menos isto «quando aparece um grande poeta, quem é que há para dar por ele». Porque agora, mais que nunca, terá que ter uma espécie de “certificação das universidades» ou outra agremiação semelhante.


A fraqueza do pensar é tanta que ninguém acredita verdadeiramente numa ideia nova, num outro caminho."
 
Eduardo Aroso no comentário do texto anterior de Álvaro Ribeiro
 
Comentário ao comentário de Eduardo Aroso:
 
Cynthia Guimarães Taveira
 
Em criança era frequente gozarem com ele na escola e porem-no de parte. Eram as roupas fora de moda que não encaixavam no gosto maioritário. Era um modo de ser, um pouco introspectivo que, de alguma maneira, o empurrava para junto daqueles que, também com uma ou outra característica promotora da diferença, eram igualmente colocados de lado e que, quando não eram alvo de chacota eram higienicamente afastados das brincadeiras: no jogos de futebol, no jogo das escondidas, nas festas de anos. Desde muito cedo o mundo não lhe apareceu ao seus olhos como homogéneo, fazendo ele próprio parte dessa homogeneidade. Pelo contrário, o mundo tinha tendência para se fragmentar e essa percepção era meio caminho andado para uma mentalidade com tendências esquizofrénicas, algo a que escapou por pouco devido ao seu temperamento místico que o incentivava, em contradição, a unir o que estava aparentemente separado.


Crescera na margem e apaixonara-se na margem: o primeiro amor havia sido proibido pela sociedade; gostar de alguém assim, como uma deficiência tão visível, tão chocante? Como era possível tal coisa? perguntavam os amigos e a família. Mais uma vez, agora na adolescência, alvo de olhares, de dizeres murmurados ao ouvido com a mão à frente.

Estranhamente, porém, desenvolvera, graças a esses episódios frequentes, uma força interior diferente. Quase cristã. Entendia Cristo, não pela sua entrega à humanidade, mas pelo facto de ter sido mal entendido. O seu sentimento de um Cristo só e traído era afinal um caminho, de alguma maneira religioso. Sentia que havia um caminho que lhe aparecia como uma contra-corrente, era um caminho estreito, que percorria a correnteza da sociedade e das massas mas em sentido contrario: havia nele a densidade e a integridade, bem como a teimosia e a fidelidade ao seu coração. E sabia que só tinha dado conta da sua existência graças às margens às quais fora votado e não naturalmente procurado. Daí não se poder dizer que houvesse a escolha da rebeldia: a rebeldia, de alguma forma, pelos insultos e pela incompreensão, escolhera-o a ele, de uma forma mais pacífica do que à primeira vista e persistente.

Chegara à conclusão que era a própria sociedade que criava as suas margens, as suas próprias contra- correntes. Ele nada mais era senão um instrumento do destino. E assim, do lado de fora, conseguia ter a percepção da marcha das massas e para onde se dirigiam. Passara de participante a observador e assim poder-se-ia falar de um teatro completo, de um cenário com actores e com público. Não havendo nem o muito certo, nem o muito errado, tudo o que enfrentara até aí tinha, afinal, a sua razão de ser:

Ele representava as ideias de um futuro esperado, mais cedo ou mais tarde encontrado e, quando isso acontecesse, seria a vez desse futuro criar as suas próprias margens num movimento intermitente no tempo até ao infinito. Por isso os antigos falavam de ciclos, do Tao, de um salto entre o branco e preto como lei da vida.

O papel da extravagância é sempre o de provocar o futuro, e nesse futuro há uma correcção implícita dos erros do presente.

Ser extravagante é estar sempre na cruz, e, no entanto, é lá que, no pino da morte, os céus se abrem. O pino da dor é o ponto em que se salta para a dimensão da próxima etapa: esteja ela num céu místico e interior, esteja ela na terra embutida de erros. O mundo limita-se a espelhar o nosso próprio caminho, e o nosso caminho é um espelho do mundo. Entre as margens ou nas margens, o sopro do Espírito Santo vai cantando as suas melodias, quando o amor sublime se solta e voa livre por este e outros mundos.

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