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terça-feira, 27 de outubro de 2009

PENSANDO À BOLINA, 12

Pedro Sinde


As mil e uma noites de Dinarzade (I)
- Todos pensam que a heroína d'As Mil e uma Noites é a bela e sábia Xerazade, mas não é; ou melhor, não é inteiramente.
Foi assim que Denis me começou a falar da leitura que tem feito desta obra magnífica. Fiquei intrigado e perguntei-lhe quem era, então, o herói, se seria o Sultão.
- Não, o Sultão é levado pela história; a vida de Xerazade parece estar nas suas mãos e, no entanto, ele é que está nas mãos dela. A verdadeira heroína é a irmã de Xerazade: Dinarzade. Vou procurar explicar-te porque penso assim. Como sabes, o Sultão, traído pela mulher que lhe foi infiel, para não voltar a ser traído, resolve a cada dia desposar uma nova mulher, mandando-a matar no dia seguinte, depois da noite de núpcias.
Xerazade, querendo libertar o reino e o próprio Sultão de tal infelicidade, oferece-se ela mesma ao Sultão. Tem um plano em mente. Depois de casada e passada a noite de núpcias, mas antes de o sol nascer, começaria a contar uma história ao Sultão, mas por tal modo que a tivesse de interromper com o nascer do dia, altura em que o Sultão partiria para os seus afazeres. Teria, no entanto, de a interromper num ponto tal que o Sultão, levado pelo enredo, isto é, enredado, a poupasse esse dia para ouvir o final da história antes da manhã seguinte. Para executar este plano, necessita, no entanto, da colaboração de alguém que a acorde antes do sol nascer e lhe peça "desinteressadamente" para continuar a história. À sua irmã, Dinarzade, cabe essa missão grave de, todos os dias, a acordar antes do nascer do sol e, com ela, o Sultão, que partilhava o leito com Xerazade.

Dinarzade é, portanto, aquela a quem cabe estar vigilante e, simultaneamente, ser o estímulo para o início de cada história. Ela é a imagem do motor imóvel, age sem agir; é ela quem acorda a irmã e o Sultão, mas quem a acorda a ela, Pedro? Ela é que é o princípio do movimento.
Percebes agora porque é que me parece que a verdadeira heroína é a Dinarzade? Ela é o espírito da irmã, que é, por sua vez, a alma do Sultão. Para que as histórias de Xerazade actuem sobre nós como actuam sobre o Sultão devemos descobrir, de algum modo, a Dinarzade em nós, esse espírito que todos os dias nos acorda para a história que temos na nossa alma e que vemos desenrolar-se no mundo fora de nós. Mas as mil e uma noites só começam aqui, há mais mistérios essenciais que gostava de conversar contigo. Isso terá de ficar, no entanto, para outro dia, porque agora mesmo tenho de ir embora e ver que história me conta Xerazade neste dia.
E assim fiquei eu, como o Sultão, inquieto, à espera que o Denis me fale de outros "mistérios essenciais" guardados n'As mil e uma noites.

texto originalmente publicado no blogue Maranos

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