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segunda-feira, 12 de abril de 2010

EXTRAVAGÂNCIAS, 55

O Plutocrata – uma fábula dramática*
Joaquim Domingues

Um esferóide cabisbaixo, desenhado por Nuno Cavaco, enquadrado pelo fundo negro, ilustra o título O Plutocrata, de Ernesto Palma, reeditado pela Serra d’Ossa nos finais de 2009. O cariz ficcional do livro insinua-se desde a Dedicatória: «Ao Orlando Vitorino, quem me obrigou a escrever o que neste livro se diz». Com efeito, uma Nota editorial esclarece não ter sido Ernesto Palma quem escreveu o texto ora publicado, resultante dos apontamentos elaborados pelos amigos que o acompanhavam na sua tertúlia.
A transposição de planos marca aliás toda a trama do volume que, em lugar dos plutocratas, tem antes por objecto a plutocracia, visto aqueles, segundo alega, terem o condão de se manterem incógnitos. Bem conhecidos são os argentários, detentores de muito dinheiro e cujo único fito consiste em arrecadar mais; enquanto os plutocratas, esses, apenas manipulam o capital disponível no mercado, sem fins crematísticos. Deles, porém, só um nome logrou ficar na história: o de Mendizabel ou Mendizábal, o protagonista de uma das célebres novelas de Benito Pérez Galdós!
A arte de Ernesto Palma, como a de Talma, consiste em efabular, ou seja, configurar em narrativa de feição exemplar um lema ou problema que, de abstracto, assume o relevo e o dramatismo duma realidade vivida. Assim nos faz aparecer o plutocrata, como o motor oculto duma situação política, económica e cultural em que o poder se esforça por bloquear a normal dinâmica da sociedade humana. Deixando à nossa perspicácia a questão de saber quais as verdadeiras razões de tal procedimento, cujo efeito mais notório seria o de salvaguardar o ascendente de certas famílias.
Os exemplos referidos ao longo da exposição parecem abonar a tese da natureza ilusória, da vacuidade e insubsistência das vicissitudes por que passou o País nos últimos decénios. Do alegado combate ao capitalismo, que campearia até 1974, veio a resultar, afinal, o reforço dele, patenteado na estreita aliança entre os detentores do dinheiro e os que, em nome dos trabalhadores, dos explorados, ou seja, do socialismo, capturaram os postos cimeiros da estrutura política adrede montada. Contudo, o acumular dos exemplos, por mais convincente que pareça, não garante o rigor da indução, como sabe quem estudou a lógica elementar.
O paradoxo esclarece-se quando atentamos na tese platónica de que «só a ideia é real, só o pensamento a concebe» (p. 44). Assim se compreende que, tal como sucedera em 1910, o que aconteceu em 1974 fosse a necessária consequência da doutrinação difundida pelos meios intelectuais, mormente universitários, atribuindo às condições materiais, sobretudo de carácter económico, a razão determinante da organização social e dos movimentos históricos. Com efeito, o pensamento comum aos que prepararam o golpe militar, aos que desmantelaram as instituições públicas e aos que, ocupando agora as que lhes sucederam, pretendem decidir do nosso destino, resume-se no lema: o dinheiro é a mola real das sociedades humanas!
Aceite o pressuposto de que a realidade está nas ideias, sejam elas materialistas, como acontece nas presentes circunstâncias, Ernesto Palma pode despedir o protagonista, que sai de cena para que o drama prossiga noutro nível. No segundo acto ou momento do discurso, em vez de se voltar para o passado, a reflexão assume carácter prospectivo, a fim de sondar as presumíveis características do futuro próximo. Como resulta do antecedente, elas hão-de ser necessariamente as resultantes das ideias dominantes na sequência do materialismo dialéctico.
Com notável argúcia, o mestre conduz a dedução cronológica dos sistemas filosóficos até à conclusão vitoriosa de que, quando acabar por impor-se a mais pasmosa indiferença, chegará o momento que «põe fim à época em que só é real o espectáculo e anuncia a época em que só o vazio é real» (p. 66). No contexto de tão radical niilismo até a morte deixará de ser pensada, eliminando-se a derradeira oportunidade da redenção pessoal, para quem enfrenta essa situação-limite. Suspenso o drama neste ponto, é digno de nota que a ele nos reconduza o Preâmbulo de Elísio Gala, o qual se há-de justamente valorizar como a reflexão actual de um discípulo de Ernesto Palma acerca da lição magistral.
O especial contributo desse prelúdio reside na abertura para um terceiro acto, esse de carácter vincadamente religioso, conducente a que possam esperar enfim a libertação quantos professam as virtudes teologais. Digamos que, após o primeiro momento, histórico ou positivo, e o segundo, especulativo ou metafísico, se ascende ao momento religioso ou teológico; denunciado o absurdo da regressão positivista, que conduzira a alma até à beira do abismo, aponta-se-lhe o efeito libertador da abertura à transcendência. A deixa para essa mudança do cenário achou-a Elísio Gala na conhecida asserção de Ernesto Palma de que «o cristianismo é a única religião verdadeira» (p. 43).
A singularidade da passagem advém, a meu juízo, do privilégio atribuído ao platonismo, cuja doutrina, segundo o pensador dramático, o cristianismo «confirma e consagra»! O que conflitua o seu tanto com a afirmação de ser o cristianismo «a única religião em que, com a encarnação, a divindade é plenamente real». Na verdade, se «a encarnação da divindade religa o sensível e o inteligível», a inferência a retirar haveria de ser quiçá a inversa – a de que o cristianismo salva a realidade do mundo, pela presença viva do Redentor.
A pendência não pode, contudo, resolver-se em termos meramente racionais, nos limites da lógica formal, pelo que o drama aguarda o desenlace noutro palco. Aliás, com ascender ao plano religioso, ele deixa de ser representável, pois se apresenta como drama ritual, vivido, como acto de redenção. A possibilidade do Reino de Deus, que a encarnação de Cristo tornou real e mesmo efectiva (visto ele estar já no meio de nós, invisível embora), aboliria até o domínio profano se, por um mistério indecifrável, o Calvário não estivesse por consumar ainda. Porque nos coloca diante de tão transcendentes questões, a reedição de O Plutocrata merece ser saudada como sinal esperançoso duma tradição que se renova.
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* Publicado originalmente no suplemento "Cultura" da edição de 10 de Março de 2010 do Diário do Minho.

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