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quarta-feira, 3 de junho de 2009

PALAVRAS QUE FAZEM VER, 12

[Álvaro Ribeiro, o criacionismo e o evolucionismo]

“A doutrina tradicional de que o homem foi criado por Deus à sua imagem e semelhança enuncia um mistério que nenhuma narrativa planificada no tempo, histórico e pré-histórico, jamais poderá explicar. Diz-nos a tradição que Deus criou não só a alma, mas também o corpo, do primeiro homem, o que nos leva a crer que o composto humano foi outrora dotado de uma perfeição e de uma santidade que não observamos nos nossos contemporâneos. Não nos obriga a doutrina tradicional a admitir a prioridade da matéria sobre a vida, nem a imaginar que o corpo do primeiro homem haja sido o aperfeiçoamento do corpo de outro animal, nem a transigir com qualquer variante da doutrina transformista.
A crença de que o homem nem sempre teve a presente configuração anatómica – crença indiscutível por métodos positivistas – garante, justifica e explica a doutrina evolucionista. O evolucionismo ministra assim o desmentido formal àqueles artistas plásticos que, por falta de imaginação e por excesso de ignorância, maliciosamente inscrevem a figura humana num círculo perfeito, para a fixarem nas condições estéticas da nudez apolínea. O homem primitivo dos artistas plásticos, reproduzido em esculturas, pinturas e gravuras, depois do Renascimento, além de não condizer com a tradição registada nas Escrituras Sagradas, obsta a que a crença passe para a ciência o iluminante conceito de evolução.
A arte cristã, esplendorosa na Idade Média, dá-nos ainda hoje uma admirável lição de antropologia filosófica. A figuração dos anjos, dos santos e dos monges, sempre vestidos de roupagens cujas linhas e cores entoam um simbolismo transcendente, aponta para a doutrina esotérica da primeira verdade. Ao cobrirem a nudez do corpo animado, os artistas cristãos não obedecem ao falso pudor do superficial moralismo; não há lutas de estética na oposição entre paganismo e cristianismo, entre a religião da dor e a religião do amor; inspirados, iluminados, doutrinados, os artistas subordinam uma realidade efémera a outra idealidade eterna.
A doutrina tradicional ensina que Adão foi criado directamente por Deus e formado por um elemento subtil que o texto bíblico designa por uma palavra susceptível de várias traduções. A criação do homem é, pois, um mistério, quer dizer, algo de essencialmente evasivo a qualquer modo da nossa representação intelectual. Descrever a criação do homem em termos de comparação grosseira com os fenómenos naturais, digamos, com fenómenos físicos e até mecânicos, equivale a demonstrar ignorância da transcendência e a pretender afirmar impiedade.
A queda, sim, é susceptível de representação figurativa e de intelecção mecânica. Ela significa o conceito de perversão, ou de razão pervertida, sem a mediação do qual não podemos opor-nos ao pessimismo que resulta da observação das desordens naturais. Ainda que a infracção seja expressa em termos de pecado, quer dizer, em termos literários de moralidade, para entendimento das pessoas que não vão além das fábulas simplistas, certo é que só a partir desse acontecimento sobrenatural nos é lícito falar de história.

(…)

Criatura de Deus, o homem é uma razão, mas uma razão animada. Os antropólogos não esquecem esta verdade quando procuram positivamente reconstituir a história natural do corpo humano. O que aos antropólogos repugna é a absurda confusão do evolucionismo com o transformismo, hipótese segundo a qual uma forma, ou alma, passa para outro corpo, ou para outro tipo de corpo, numa série cinzenta de metamorfoses de que o último e derradeiro termo seria a carne humana.
Vestígios de uma realeza perdida, ou de uma realidade perdida, podem ainda ser vistos nas diferenças que existem entre o homem e os outros animais. Cremos errado interpretá-los como sinais científicos de progresso ascendente na escala zoológica, quer dizer, de aperfeiçoamento realizado sobre o equivocamente chamado homem primitivo. Vemos, pelo contrário, nessas diferenças os símbolos auxiliares da imaginação transcendente, possibilidade infinita de religiosamente inteligirmos a figura e a forma de Adão.
Muitas semelhanças que existem entre o corpo dos outros animais e o corpo humano não constituem provas de filiação ou continuidade genealógica. As diferenças demonstram, porém, que o corpo do homem está adaptado a condições superiores às da vida actual. Esta descontinuidade, que é um segredo da Natureza, não permite que a génese do corpo humano seja integrada na genealogia transformista, porque exige logicamente uma hipótese suplementar, uma hipótese superior.
«O homem é um mamífero vertical», afirma Vialleton. Observemos a atitude erecta, a verticalidade da coluna vertebral, e a correspondente disposição do aparelho digestivo. Observemos também que o homem pode apoiar-se exclusivamente sobre os pés, tanto quando marcha como quando está parado, o que lhe permite conceder aos braços uma admirável liberdade de movimentos.
A mão do homem, se bem que semelhante à dos macacos, é dotada da propriedade de sobrepor o polegar aos outros dedos e, portanto, de exercer mais delicadas funções de digitação. O homem colhe os frutos das árvores para se alimentar, e a tradição nos diz ter sido esse o seu primeiro processo de alimentação, pelo símbolo e silogismo da árvore. Ao satisfazer o primeiro instinto biológico – o da nutrição –, o homem conserva ainda a digna postura que lhe permite olhar de frente, para cima e para longe.
A boca humana é de reduzidas dimensões, em consequência de os maxilares se caracterizarem de os maxilares se caracterizarem pela verticalidade, e a falta de prognatismo contribui favoravelmente para a beleza do rosto. O alimento entra na boca já partido pelas mãos, ou talhado por utensílios apropriados. A cabeça do homem não baixa à terra para procurar alimentos, espera pelos efeitos da agricultura, e da terra se distancia por intermédio dos braços.
No engenho de que o homem usa para que os alimentos inferiores subam à altura da boca, há simbolismo tão elevado como na sua marcha para o horizonte. O homem evita, tanto quanto possível, o trabalho que demasiadamente incline o tronco para a terra, o trabalho que o obrigue a um esforço muscular análogo ao dos mamíferos domesticados. O homem prefere um mister que lhe permita estar de costas direitas, trabalhar de pé ou sentado, mas com liberdade de movimento dos braços e das mãos.”
Álvaro Ribeiro
(excertos retirados de A Razão Animada, INCM, 2009)

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