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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



sábado, 2 de maio de 2009

SAUDAÇÃO A ANTÓNIO TELMO, 11












Acontecimentos extraordinários
na Sesimbra de outrora*
António Telmo

Tinha dezasseis anos, quando o meu Pai trouxe a família para Sesimbra. Nesse tempo, Sesimbra era visitada no verão por meia centena de turistas. As ruas, os Cafés, o jardim, a praia eram nossas.
Eu trazia comigo o amor dos livros e o que neles nos ajuda a compreender quem somos, donde vimos e para onde vamos. Não demorou muito tempo, depois que ali cheguei, que não entabulasse relações de convívio intelectual com outros rapazes, de que o mais velho era o hoje famoso Rafael Monteiro, celebrado juntamente como um dos mais notáveis sesimbrenses de sempre. Ele e dois poetas, o Gilberto Pinhal e o José Preto, estavam contaminados de tuberculose, a doença da época, que a proximidade do mar fazia progredir vertiginosamente.

A tábua, à volta da qual se entabulavam as nossas conversas de amizade, era uma mesa do Café Central. Eu respirava na atmosfera dos meus companheiros horas a fio, discorrendo com eles sobre os para nós profundos mistérios da literatura, em sua essência a mais elevada expressão do sobrenatural.

O Gilberto, de uma família de pescadores, tinha chegado do sanatório do Caramulo. Era um poeta não muito inspirado, mas havia nele algo de excepcional que se confundia com a doença que o minava. Acontecia também que um dos escritores que líamos então, o ultrafamoso antropólogo Rodolfo Steiner, era tal e qual o rosto do Gilberto. Comparávamos a fotografia que vinha num dos seus livros com o nosso amigo e cumprimentávamo-lo pela parecença com um homem tão elevado. Eu via nisso uma afinidade profunda de alma que o Gilberto devia procurar na sua mesma intimidade. Os outros companheiros de tertúlia preferiam uma explicação mais fácil: o Gilberto seria, segundo eles, uma reencarnação do Rodolfo Steiner. Dois anos depois, o próprio talvez tenha chegado a saber mais do que nós, porque morreu.

Uma ou duas semanas antes deste triste facto, deram-se acontecimentos extraordinários no grande casarão vazio onde a Câmara Municipal o deixava pernoitar. Diz-me hoje o António Reis Marques, outro da mesma tertúlia, da saudosa tertúlia, que o referido casarão era uma casa assombrada. Não sei. O que eu vi e posso testemunhar e presumo que a memória me não engana, foi a decomposição do corpo etérico do nosso Rodolfo Steiner que se manifestava, no seu quarto para onde nos chamava, pela aparição nas suas paredes de sucessivas por imensas luzes de cor láctea, que se acendiam aqui, se apagavam ali por toda a parede à volta. O acontecimento foi sabido por toda a vila. Duas mulheres do mar que se cruzaram comigo na rua, interpelaram-me dizendo:

“O Gilberto vai morrer. Aquelas luzes que vos apareceram são as “alminhas” a anunciar a sua morte para breve."

Acertaram. Mas o José Preto também nos deixou por essa época e não houve qualquer manifestação sensível do sobrenatural. Este era um grande poeta. Há uma poesia dele, O Chamador, que Azinhal Abelho da Orada fez figurar numa antologia dos melhores versos escritos por portugueses.

Esta minha convivência com tuberculosos do último grau foi notada pelo médico do povo, o Dr. Costa, que, chamando-me à parte, ralhou comigo por não temer o contágio, o que de certo atribuía à minha ignorância e não à excelência da minha alma cristã.

Tive, porém, outro aviso, esse mais sério. Altas horas da noite, acordei a ouvir uma voz interior, tão natural como a nossa quando a movemos de nós sem preconceito ou vaidade, que me interpelava:

“Não estejas melancólico, senão entuberculizas.”

O perigo vinha afinal, não do meu convívio com tuberculosos, mas de um estado doentio da alma: a tristeza.
A tristeza, descobri eu então como hoje creio, é a expressão de falta de confiança na bondade de Deus.

O contágio dera-se, mas o meu reencontro com a alegria, fez que a terrível doença encubasse. Veio a manifestar-se quarenta anos depois. Fica aqui a minha gratidão ao João Rêgo, então médico e amigo, o qual, situando as suas raízes no passado, a diagnosticou correctamente.

*Publicado em O Sesimbrense, de 30 de Abril de 2009.

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