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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



quinta-feira, 7 de maio de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 7

António Carlos Carvalho

Ei-la, de novo: a tese da «cabala». De vez em quando, talvez à míngua de melhor argumento, os políticos recorrem a esta tese para se defenderem: «Isto é uma cabala», «Há uma cabala montada contra mim».
Devo confessar que fico arrepiado quando ouço ou leio coisas destas. Arrepiado e furioso. Quase tanto como quando me chega a informação sobre um «curso de cabala» na galeria tal e tal, no Bairro Alto.
Realmente vivemos no reino da confusão e do caos generalizado, e eles manifestam-se primeiramente na linguagem. Vejamos o que diz o dicionário: «Cabala – Ensino oculto, sistema hebraico de interpretação bíblica, ciência oculta, conluio ou intriga secreta entre indivíduos que conspiram para o mesmo fim, maquinação, tramoia, trama». «Cabalar – Fazer cabalas, entrar em cabalas, conspirar, enredar, intrigar». «Cabalista – Pessoa que toma parte em cabala, que se dedica a ciências ocultas». A questão que eu ponho é simples: como é que uma palavra como «cabala» pode ter significados tão contraditórios? Como é que um «cabalista» pode ser, simultaneamente, um conspirador e alguém «que se dedica a ciências ocultas»?

Uma página do livro Zohar, texto fundamental da kabbalah

Imagino a cara do escritor Richard Zimler quando escreveu «O Último Cabalista de Lisboa», se acaso recorreu ao dicionário e encontrou uma definição destas... Mas também é verdade que estas confusões não são só nosssas: o Larousse dá uma definição semelhante e o Petit Robert faz o mesmo, acrescentando que «manobras secretas, concertadas contra alguém», é um sentido «figurativo, literário».

Pois é, estes sentidos figurativos entram na linguagem e aí ficam para a dominar e retorcer. E até têm direito a figurar nos dicionários, que os consagram.

Assim, o mesmo dicionário de Português por mim consultado (Texto Editora, edição de 1999) diz-nos mais:

«Judia – Mulher ou rapariga travessa, de má índole».

«Judiação – (Brasil) Acto de judiar ou mofar, perversidade, judiaria».

«Judiar – Judaizar; escarnecer, zombar, atormentar, fazer judiarias».

«Judiaria – Bairro de judeus, grande porção de judeus; maus tratos, chacota, pirraça, mofa, maldade».

Lembro-me, então, de ouvir a médica veterinária a dizer a uma das nossas gatas: «Agora vou-te fazer umas judiarias...»

E lembro-me também do episódio que um amigo meu, cirurgião, Joshua Ruah, me contou: um dia, no consultório, ao anunciar a uma senhora que ia operá-la, a senhora em causa comentou: «Oh, senhor doutor, não me faça muitas judiarias...» E ele, imperturbável, respondeu-lhe: «Minha senhora, lamento mas é só isso que eu sei fazer...»

Às vezes, é pelo humor que se consegue desmontar a aliança democrática da ignorância e do preconceito.

Quanto à tese da «cabala», não há nada a fazer: deixemos aos políticos e aos seus ecos (os meios de comunicação) essa confusão – afinal de contas, é nesse mundo que vivem e é dele que tiram proveito. Pela nossa parte, resta-nos apenas recorrer a outra grafia para evitar equívocos: a mesma que António Telmo usou nos seus livros mais luminosos -- «Filosofia e Kabbalah» (Guimarães Editores, 1989).

Talvez usando esta grafia «extravagante» (mas que transcreve a original, hebraica) se possa fazer a necessária separação das águas deste dilúvio de enganos. Talvez.

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