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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



terça-feira, 15 de dezembro de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 42

Resposta ao Editor
Cynthia Guimarães Taveira

Neste blogue diferente, porque possui a marca da elegância, Pedro Martins, na rubrica “No Coração da Arte”, foi escolhendo, texto a texto, imagens da nossa pintura. De uma pintura que praticamente já não se faz. Isso, se calhar, foi choque para alguns porque hoje o bom gosto parece ser chocante e há até quem lhe chame “Kitsch”. Ou então há quem argumente que o bom gosto é relativo. Para alguns, ele é evidente; no entanto, para outros, ele nada mais é do que uma falha na educação. Passo a explicar.
Por altura da Cimeira Ibero-americana em Portugal, há umas semanas, portanto, encontrava-me eu a rever um longo texto no computador quando, na televisão, transmitiam parte dessa cimeira. Completamente embrenhada no que estava a fazer, começo a ouvir, ao longe (porque a televisão estava com o som muito baixo) música clássica tocada com uma alegria contagiante. Procurava, em vão, concentrar-me no que estava a fazer, mas aquela música era mais forte, e decidi parar, para ver e ouvir o que estava a acontecer. Surpreendentemente, quem tocava eram jovens. Jovens que tocavam com tanta alegria que a própria música transmitia isso. Alguma coisa passava deles para aqueles instrumentos. Porque a música tem esse dom de nos dominar, fui ficando alegre também, mal sabendo que, no fim, me esperava um mar de lágrimas (hoje as lágrimas de emoção são muito mal vistas, elas normalmente só aparecem em frente às câmaras quando morre uma estrela de Pop, Rock ou de futebol). No fim, a surpresa: aqueles jovens de vinte e poucos anos ou menos tinham sido todos retirados das ruas miseráveis da Venezuela e tinham sido educados pela arte. E mais uma vez senti que havia algo de profundamente podre na nossa educação. Aqueles jovens eram sensíveis à dita música clássica porque tinham sido educados assim e por esse caminho.

A Orquestra Sinfónica da Juventude Venezuelana Simón Bolívar, sob a direcção do maestro Gustavo Dudamel

Cá em Portugal há, ou antes, havia, porque se zangou e com razão com o país, alguém que tentou fazer o mesmo, associando à arte a vertente da educação pela natureza. Falo obviamente de Maria João Pires, mais do que uma grande pianista, uma mulher vinda de um futuro que nada tem a ver com o futuro que nos querem impor. É claro que Maria João Pires deve ter sido considerada pelas nossas elites políticas (que estão sempre associadas a outras elites artísticas altamente duvidosas) como sendo uma excêntrica, uma louca e quiçás uma patetinha. Fazer uma casa no meio de nada, num meio rural e interior, onde as crianças podiam ser educadas nas artes e no respeito e amor pela natureza, não mereceu qualquer resposta de aprovação ou qualquer incentivo que se notasse por parte de abutres que nada percebem sobre a condição humana. E a visionária, tal como Agostinho da Silva, partiu para o Brasil porque lá há espaço e ainda há quem sorria perante as ideias loucas de um futuro diferente.
A ideia de educação está intimamente ligada à ideia que temos de futuro. Se olharmos para os programas e currículos dos nossos 1º, 2º e 3º Ciclos e olharmos com olhos de ver, nota-se perfeitamente a marca do positivismo do século XIX. Estão lá sempre, em qualquer que seja a disciplina, o facto, a prova, a experiência, a comprovação, o argumento científico. A História é dada como um conjunto de factos: há poucos dias, pediram-me para sublinhar num livro de História aquilo que era mais importante – porque, por estranho que pareça, os nossos jovens não sabem fazer resumos -- e dei por mim a sublinhar tudo. Tudo era importante porque a História era dada como um conjunto de factos pegados uns aos outros com total ausência de narrativa. O grande relevo, é claro, está na ciência, biologias, físicas, químicas, tudo isso é dado com grande vigor, pormenor e grande avanço (a comparar com aquilo que aprendi). As artes e letras são meras consequências, satélites de uma civilização que só se tornou grande e poderosa à custa da tecnologia , e são leccionados no primeiro ciclo por professores satélites e mal pagos em horário infantil pós-laboral, sem incentivos e sem materiais. A natureza está totalmente ausente porque, se calhar, não é necessária no futuro, ainda estou para saber como.
O futuro que imaginamos é feito de robots e chips e a natureza só pode ser preservada à custa da tecnologia com painéis solares, reciclagens complicadas feitas em fábricas, electricidades vindas de motores transformadores.
Chorei ao ver aqueles jovens tocar, porque a arte e a natureza são as únicas vias para uma educação melhor, até porque estão intimamente ligadas. A falha de ensino é uma falha antropológica porque, como nos ensinou António Quadros, “A Antropologia precede a História”. Se educássemos o bom gosto nas crianças (sem relativismos teóricos), se as fizéssemos sentir e amar a beleza que há numa flor e a beleza que há numa flor pintada, ela intuitivamente percebia para que tinha nascido. A harmonia está a um passo e foi por isso que eu chorei, se calhar ingenuamente, embora as lágrimas fossem tão verdadeiras como a dor do mundo.

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