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domingo, 20 de março de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 15



O sorriso sério

Alexandra Pinto Rebelo

Em Portugal existem hábitos terríveis. São tiques vindos não se sabe muito bem de onde nem porquê e que acabam por fazer escola. Um desses hábitos tenebrosos é o associar-se a seriedade do trabalho intelectual às expressões faciais sérias e pouco sorridentes bem como às palavras sem graça.

Talvez este costume tenha sido adoptado depois de se estabelecer, durante toda a Idade Média, principalmente, que Cristo nunca tinha sorrido. Talvez a sua origem ainda seja mais remota no tempo, tendo em conta que Aristóteles entendia que tanto a Tragédia como a Épica eram géneros superiores à Comédia.

O que é certo é que nos fomos habituando à ideia de que os sorrisos revelam uma tolice indisfarçável, ao passo que as palavras sérias e ponderadas são sinónimo de introspecção e inteligência superior.

Estes traços têm adquirido um peso excessivo, também, entre aqueles que escrevem sobre história. O passado, apoiando-nos em Aristóteles, pode ser trágico, ou épico, mas nunca cómico.

Desta forma, não pode deixar de nos causar algum espanto, a forma de escrita de alguns autores de origem anglo-saxónica. Para eles, a história é o que é, complexa como a vida humana, percorrendo todas as variáveis possíveis. Escrevem história, de uma forma diferente da qual estamos habituados, trazendo-nos o passado não como foi, pois isso é impossível (segundo um provérbio chinês, “O passado é verdadeiramente imprevisível”), mas como pode ter sido, incluíndo a comicidade a que nenhum momento histórico conseguiu escapar.

Nesta linha, Tom Holland surge como entre aqueles que mais livros tem vendido entre nós. O Rubicão e Milénio são bons exemplos daquilo que acabo de referir.

Mas gostaria de citar, não Tom Holland, mas outro autor anglo-saxónico, Jonathan Wrigth, nas primeiras linhas da sua obra Os Jesuitas. Falar sobre os jesuítas é, geralmente, um assunto sério. Pressupõe uma leitura igualmente séria, de acordo com os nossos costumes. Mas Wright começa por nos quebrar imediatamente. O rigor histórico não tem a haver com a falta de sorrisos, nem com o tratar de assuntos do passado como quem assiste ao velório de um ente querido. Ouçamo-lo:

“Em 1554, segundo narra a história, uma aristocrata portuguesa arrancou com os dentes o dedo menor do pé direito do cadáver de Francisco Xavier. Foi um acto de profunda devoção, ainda que algo repulsivo: o muito viajado dedo de Xavier tornou-se uma relíquia sagrada digna de ser possuída.”

Depois disto, o passado nunca mais pode ser o mesmo.

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