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domingo, 15 de maio de 2011

SABEDORIA ANTIGA, 18
















De tempos a tempos

Alexandra Pinto Rebelo

De tempos a tempos, surge um mal estar entre as pessoas comuns e a minoria que as governa. Sempre assim foi e, possivelmente, sempre assim será.
Diferente tem sido a forma das pessoas comuns lidarem com isso.
Hoje em dia, por exemplo, os estados modernos formataram o nosso ímpeto político através do conceito de voto. O conceito não está mal pensado. De quatro em quatro anos, ou de cinco em cinco anos, vamos às urnas dar uma espécie de opinião. O voto apenas pode constituir uma espécie de opinião pois, votar em A ou em B, é apenas cumprimentarmos a nossa própria resignação em relação às coisas.
Se tentarmos entender aquilo que se passa, facilmente chegaremos à conclusão de que, os estados europeus, sobretudo os do sul da Europa, chegaram a formas de governo extraordinariamente perversas.
Existem dois grandes grandes partidos com um entendimento entre si de rotatividade do poder. A espera pode ser maior ou menor, quatro ou oito anos, mas o partido que foi o menos votado de ambos tem como certo a tomada dos destinos do país proximamente. Essa espera nem é totalmente desprovida de emoção ou compensação já que, pode-se atacar politicamente o outro partido que governa, enquanto se é compensado com cargos em empresas públicas ou privadas.
O nosso voto tem, desta forma, um único papel. Um papel importantíssimo, não pelos motivos que nos dizem, a nossa opinião contar, mas pela razão de validar esta forma de poder, este entendimento entre partidos.
A democracia não é isto. Isto é o retrato de um monstro mitológico, seja ele qual for, com duas cabeças. De tempos a tempos, vamos dar-lhe o nosso voto, como dantes se levavam jovens ao Minotauro, tentando mantê-lo contente. Sim, é preferível um inferno conhecido a qualquer outro que não se conheça.
Dizia-me o Professor António Feijó que, na América, a democracia funciona mesmo. Se pessoas excessivamente obesas têm dificuldade em passar por portas com medidas standartizadas, eles fazem um abaixo assinado, entregam-no, e o problema é resolvido. Lembro-me de que, quando ouvi este exemplo, pensei “Ah! Então é com isto que se parece a democracia”.
Existirão formas de escapar a esta falácia em que vivemos? Talvez. No entanto, não acredito em revoluções mas apenas na imaginação política. As revoluções são o desespero levado a uma forma de histeria, atacando culpados e inocentes, justificando o caos com uma necessidade arquetipal de justiça.
Nos primeiros tempos de Roma, os plebeus tinham muito poucos direitos quando comparados com os patrícios. Foram feitos vários pedidos para aumentar esses direitos, pedidos esses que não deram em nada. Então, alguém teve aquele toque de imaginação que é raro existir e mais raro ainda ser aplicado. Os plebeus emigraram em massa de Roma e foram instalar-se num local chamado Monte Sacro, perto do rio Anio, com o propósito de fundar ali uma nova cidade, com uma nova política. A cidade de Roma não poderia nunca funcionar sem eles, claro. Por isso, foram enviados emissários, por parte dos patrícios, com a promessa de criação de dois cargos de tribunos da plebe, cuja função seria zelar para que estes não sofressem de abusos de poder. A proposta foi aceite pelos plebeus e assim, regressaram à sua cidade.
Hoje em dia, mais do que nunca, é necessário pensarmos em qualquer coisa semelhante...

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