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sexta-feira, 3 de julho de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 16

António Carlos Carvalho

Uma das vantagens de mudarmos livros de uma casa para outra e de os voltarmos a arrumar nas estantes é a de se «encontrar» obras que andavam perdidas entre outras ou no labirinto da nossa memória. Aconteceu-me agora, por exemplo, com a edição de 1931, da Faculdade de Letras do Porto, de «Estudos e Controvérsias», segunda série, de José Teixeira Rego.

O exemplar, algo manchado pelas marcas do tempo, tem uma dedicatória do autor, embora o nome do contemplado não seja referido: «Ao meu querido amigo e ilustre colega, em testemunho da mais alta consideração – oferece José Teixeira Rego.»

Se bem me lembro, devo ter comprado este livrinho há uns 30 anos, ao alfarrabista Almarjão, no Bairro Alto. No tempo em que eu utilizava as horas de descanso para folhear livros antigos nos alfarrabistas daquela zona, onde então trabalhava.

Passo os olhos por este exemplar para ver que sublinhados fiz – e os que faria agora. É um exercício meramente pessoal, em que avalio os meus interesses de ontem e de hoje.
Curiosamente, pouco tenho a acrescentar. Já na altura me tinha apercebido do excepcional interesse desta colectânea de estudos, aliás entretanto reeditada em 1990 por Pinharanda Gomes na Assírio & Alvim, num volume que reúne a primeira e a segunda séries, «A Literatura Portuguesa da Idade Média e do Século XVI» e textos dispersos.
Há 30 anos como hoje, o que me tocou e toca é a extrema atenção dada por Teixeira Rego às figuras e às obras de Sampaio Bruno, seu amigo e mestre, e sobretudo de Samuel Usque (com quem teria «aparecido pela primeira vez, com magnificência, o estilo pictural na literatura portuguesa» e que teria influenciado Camões e Fernão Álvares do Oriente), Gaspar Frutuoso, Sá de Miranda e Bernardim Ribeiro – neste último nome leu Teixeira Rego o anagrama de Juda Abarbanel ou Abarbinel e teve dúvidas de que ele fosse o autor dos «Diálogos do Amor».
«Para prova de que de algum modo o estilo da “Menina e Moça” andava na família de Juda, seu pai Isaac Abarbanel, tendo fugido para Espanha por ocasião da conspiração do Duque de Bragança, escrevia no prefácio de um seu livro: «Vivia eu tranquilo na casa que tinha herdado de meu pai...», passagem que ainda recorda o começo da “Menina e Moça”».
Teixeira Rego realça também as semelhanças entre a obra de Bernardim e a «Crónica do Imperador Clarimundo» de João de Barros – ambos usam jogos com letras, anagramas, e as semelhanças são de tal sorte que «ou Barros se inspirou em Bernardim ou este em Barros». «Entre esses nomes fantásticos que aparecem no Clarimundo um há que nos deve merecer atenção: é o de Arminer de Buda. Este nome é... o anagrama de Bernardim Ribeiro».
Tal como Teixeira Rego escreve num outro estudo, «a literatura portuguesa, mormente a do século XVI, está tão cheia de confusões, fraudes, omissões, casos de crítica que pode afirmar-se que, a propósito das mais simples circunstâncias, surgem problemas em regra insolúveis, ou pelo menos de uma solução dificílima.»
Lembremo-nos que esse século XVI é o de Camões, Bernardim Ribeiro, Samuel Usque, Cristóvão Falcão, João de Barros, Diogo do Couto, Damião de Góis, Sá de Miranda, Gaspar Correia, Gil Vicente, Jorge Ferreira de Vasconcelos, Jorge de Montemor, Fernão Álvares do Oriente, Fernão Mendes Pinto.
E, claro, o século em que a Inquisição se instala entre nós, para nossa desgraça.

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