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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

ENTRE CÁ E LÁ E OS IBERISTAS DO COSTUME, 3

Carlos Aurélio

2 - E os iberistas de lá? Quem são e ao que vêm? Lá como cá, existe a visão mercenária e mercantilista e aquela outra de poetas e filósofos. Esta última sendo larga não nos convém porque, já o dissemos, é sempre mais continental e não contempla o mar como nós. A primeira precisa de um pouco de caricatura, não o nego, para que melhor se destaquem os traços dos seus propósitos. No teatro do mundo também existe a comédia.
Nesse iberismo castelhano mais raso e boçal, Portugal é uma espécie de ilha para ser governada por Sancho Pança, e isto sem os sábios conselhos de D.Quixote. Fica dentro dos limites de um qualquer alcaide, faz parte da ideia centrípeta de Isabel a Católica e do catolicismo castelhano que lhe fez a vénia. Está incluso na “Castela Una” de Filipe II, do duque de Olivares, de intelectuais ou políticos como Calvo Sotelo, Gil Robles, Salvador Madariaga, gente de direita e também alguma de esquerda até chegar ao Generalíssimo deles, Francisco Franco, cuja tese como cadete na Academia de Toledo se revela na jactância do título escolhido: «Como se ocupa Portugal em 28 dias» – realmente o mês lunar avisa sempre sobre a transitoriedade das ideias degenerativas! Há depois o iberismo que se quer superior que é o de Pelayo, Pidal, Unamuno ou Ortega y Gasset que, supostamente, admite o resto da Península com direito a ser algo centrífuga. A obra de alguns deles como a de Unamuno, até conversa superiormente com a de alguns nossos, como é o caso de Teixeira de Pascoaes. E a isso que tanto tem de catalisador e de admirável nada temos a opor. Todavia, as coisas nem sempre são o que parecem e lembremos tão só, que Ortega y Gasset, o madrileno e ímpar filósofo da geração de 98 e no que foi seguido pelo reitor de Salamanca, Unamuno, escreveu a Espanha Invertebrada, livro no qual as vértebras necessárias, muito naturalmente, só ganham força tomando Castela para espinha das Espanhas. Pudera! Para Portugal, Galiza, País Basco ou Catalunha o afastamento da coluna vertebral exclui-lhes a possibilidade de chegarem a ser sequer um órgão nobre, o coração, o fígado ou os pulmões. Teríamos sorte se nos calhassem umas vísceras da barriga ou um quase anónimo ossinho do tornozelo. Enfim, coisas do teatro anatómico!...

Ortega y Gasset
Não pode existir, por anti-tético, iberismo português! O iberismo conduz necessariamente ao fim da ideia superior de Portugal. Há iberismo castelhano e também não há iberismo espanhol porque, – escutem bem! – a Espanha não existe! Existe Estado espanhol, não existe pátria espanhola. O que há dentro do estado espanhol são várias nações e pátrias como é o caso da Galiza, do País Basco, da Catalunha, de Castela. O Estado articula instituições para que assim se exerça o Direito, a República cuida dos interesses patrimoniais e públicos ainda que também o possa fazer monarquicamente, ou aristocraticamente, a Nação é uma entidade natural que reúne em si todos os que nascem e nasceram dentro e sob a entidade espiritual da mesma língua, a Pátria. Isto ensinou um filósofo português, Orlando Vitorino, desaparecido há pouco do mundo dos vivos e que agora é muito bem capaz de estar conversando no Paraíso com Camões e Cervantes.
Antecedentes: 1.ª parte; 2.ª parte

(continua)

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