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terça-feira, 1 de setembro de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 25

António Carlos Carvalho

Não há dúvida: como dizia o velho senhor, cada um de nós é ele próprio e a sua circunstância. Há 70 anos, neste mesmo dia, teve início aquela que ficou conhecida como Segunda Guerra Mundial. Oito anos depois, nascia eu, numa casa cheia de imagens e de palavras desse conflito: revistas, livros, folhetos, publicações diversas produzidas pela propaganda dos Aliados ou do Eixo. Foi vendo essas imagens que fiz a minha educação visual; foi lendo esses livros (descrições de batalhas e de outros episódios bélicos) que entrei num mundo que não era o meu mas que herdei numa espécie de fatalidade familiar.
Mais tarde compreendi que essa fatalidade não era só minha, era a de todos nós, ainda hoje.
Porque herdámos realmente um mundo que morreu, mesmo fisicamente, em 1939-1945.
E, supostamente, renasceu a seguir.
Na verdade, as coisas são muito mais complicadas.
A guerra que teve início exactamente há 70 anos era, afinal, a segunda fase de um conflito que começou em 1914 e supostamente terminou em 1918 (11 de Novembro, feriado em todos os países europeus beligerantes, excepto em Portugal). A esse primeiro conflito chamaram «a última das últimas» guerras, a «Grande Guerra». Mas afinal, vinte e um anos depois (apenas isso), percebeu-se que não era a última nem «a grande» -- em 1 de Setembro de 1939 começou uma outra e maior do que a primeira. Maior em tudo: em número de vítimas, em países e regiões participantes, em cenários de conflito, em graus de destruição, em horrores cometidos.
Hoje, há quem fale apenas de duas etapas da «guerra civil europeia» (1914-18 e 1939-45), fórmula que seria interessante se não se desse o caso de a guerra, iniciada na Europa, ter excedido largamente as fronteiras deste continente, envolvendo todos os outros, e de, vendo bem, todas as guerras serem realmente «civis», porque travadas entre irmãos – somos todos filhos de Deus, evidência que só os ateus contestam, e habitantes da mesma Terra.
Por outro lado, esses 21 anos de paz entre os dois conflitos irmãos, não foram nada pacíficos: além de insurreições e banhos de sangue «menores», tivemos a chamada Guerra Civil de Espanha, que foi na verdade um campo de treino, um balão de ensaio para diversas forças que vieram a intervir na Segunda Guerra.
Não me vou deter aqui nas causas deste conflito. Os historiadores, nas suas querelas, continuam ainda hoje a não ver um consenso possível.
Interessa-me muito mais referir as consequências, porque são elas que pesam hoje nas nossas vidas precárias. Por exemplo, tanto a Primeira (16 milhões de mortos e 22 milhões de feridos, militares e civis) como a Segunda Guerra (cerca de 50 milhões de mortos, militares e civis, estes mais do que os outros) demonstraram, na frieza dos números e dos imensos cemitérios, que a vida humana era uma simples questão de números. Aliás, nos campos de extermínio os funcionários zelosos tinham o cuidado de tatuar um número em cada detido, para simplificar a contagem, a contabilidade, antes do mesmo ser gaseado e desfeito em fumo nas chaminés dos fornos crematórios.

A cidade de Colónia, devastada pelas bombas: clique na imagem para a aumentar

Hoje, suprema conquista da civilização tecnocrática, cada um de nós tem direito não a um mas a vários números que o enquadram devidamente no sistema totalitário para o qual caminhamos.
Em Auschwitz e noutros lugares infernais criados durante 1939-45, cada ser humano ali internado, além de possuir um número, era também um objecto, um utensílio, do qual era possível extrair quase tudo (pele, cabelos, gordura) – daí a pergunta essencial de Primo Levi, «Se isto é um homem».

Mas outra coisa terrível que este conflito mostrou, mais do que o anterior, é que a guerra era agora total – militares ou civis, todos eram «matáveis», mesmo que fosse por razões menores mas sempre justificadas: por exemplo, em França, cerca de 15 mil civis foram mortos ou feridos durante os bombardeamentos que precederam o desembarque do «Dia D» e 20 mil nos combates que se seguiram ao desembarque e avanço dos Aliados. E antes disso, o bombardeio sistemático das cidades alemãs, a partir de 1942, levou a que morressem 30 mil habitantes de Hamburgo em Julho de 1943, já para não falar do braseiro de Dresden, em Fevereiro de 1945, onde pereceram 30 ou 40 mil. Apenas dois exemplos de «danos justificáveis» pela espiral de violência. (A este respeito, W.G. Sebald escreveu uma terrível «História Natural da Destruição».)
De facto, se após o Dilúvio, na sua aliança com Noé, Deus prometeu que não voltaria a fazer o mesmo, da parte dos homens não houve tal promessa – e as duas guerras mundiais foram um verdadeiro dílúvio de fogo. Dilúvio esse que culminou, logicamente, no lançamento das duas bombas atómicas em Hiroxima e Nagasaki.
Como escreveu o filósofo Gunther Anders, «o século da indústria de massas tinha chegado também agora a produzir industrialmente cadáveres aos milhões». E a indústria nuclear mostrou que era perfeitamente possível pensar-se no extermínio da própria humanidade.
Todas estas circunstâncias me têm acompanhado ao longo da minha vida. Para mim, esse passado não passou, é sempre presente, no fascínio do seu horror. Sei, porque a própria História se encarregou de o demonstrar, que é sempre possível voltarmos a ter mais uma etapa da tal «guerra civil» que não é europeia mas mundial. A terra absorveu o sangue de tantas dezenas de milhões de mortos e feridos. Mas não sepultou os erros que cometemos. Polemos, o conflito, continua a governar as nossas vidas. Ou dito de outra forma, Caim continua a ser o modelo da nossa civilização.
Por isso me toca tanto, de cada vez que o revejo, um filme como «O Resgate do Soldado Ryan» -- e a pergunta que Ryan, envelhecido, faz naquele cemitério sem fim: «Diz-me que valeu a pena».Uma questão que ecoa o que Cesare Pavese escrevera em 1948, no romance «O diabo sobre as colinas», «Eu não acredito que tudo isso possa terminar. Agora que vi o que é a guerra, sei que se ela acabasse toda a gente devia perguntar: “Que vamos nós fazer daqueles que caíram? Porque é que morreram?” Eu não saberia responder. Pelo menos por agora. E não me parece que outros soubessem. Talvez somente os mortos saibam e só para eles a guerra tenha terminado realmente.»

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