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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

TEMPOS DE HOJE


Não há somente o Portugal da Terra
Há outro Portugal, o do Outro-Mundo,
Onde Pedro anda a caçar na serra
E Inês repete o seu adeus profundo

Senhor de um povo que entre brumas erra,
O Portugal-Maior não tem segundo
Rei Encoberto, quando vais para a guerra?
Camões, que estás dizendo, moribundo?

Andaste na oficina do Bandarra
Ó tu
Que sentes do bruxedo a garra
E deitas profecias à lua-cheia!

Leva-me a crer, com a peneira erguida,
O outro Portugal de outra-vida
Por quem a raça anseia!

António Sardinha (1888-1925)

A Questão de Portugal

Cynthia Guimarães Taveira

Na época salazarista falar dos Descobrimentos e do resto da História de Portugal era, de alguma forma, uma espécie de legitimação do Estado Novo. Claro que a História pode ser aproveitada para determinados fins uma vez que também ela é um aproveitamento dos factos do tempo. Mas há uma questão que acompanha a nossa História e que é exactamente a Questão de Portugal.

Provavelmente nunca um país foi tão questionado pelos seus. Tanto pelos seus poetas, escritores ou filósofos como pela forma decaída da Questão traduzida no tipo de frases ditas pelo português comum: "este país não vai a lado nenhum",ou "tenho vergonha do meu país". Parece haver uma relação com este país do tipo "eu e ele" ou "eu e tu" e talvez, por isso, André Coyné tenha escrito "Portugal é um ente", ou seja, algo que se confunde com um ser, com uma pessoa. Temos uma relação verdadeiramente pessoal com o nosso país. Daí que até os filósofos que se debrucem sobretudo sobre questões ontológicas, mais tarde ou mais cedo, toquem a pátria nas suas reflexões, toquem esse outro ser para além deles e dos outros e escutem os poetas nos seus lamentos e exaltações.

Se um país é personificado deverá comportar-se como uma pessoa. Com o seu corpo, o seu coração, a sua alma (incapaz cientificamente de ser testada) bem como o seu espírito. A Questão de Portugal talvez seja a questão da própria Pessoa. O que é dado à Pessoa? O que se espera dela? Para onde caminha? A Questão da Pessoa é a questão antropológica, uma questão ainda muito longe de ter resposta. Portugal e Pessoa confundem-se e mantêm-se como um maná a que recorrentemente escritores, poetas, filósofos e artistas retomam como seu alimento. Daí o facto de existir uma linhagem em Portugal de entes que questionam o ente maior onde vivem. Uma linhagem impossível de aniquilar pois parece ter as suas raízes num país que a tecnologia, a política ou as grandes empresas nem sequer vislumbram. O país invisível, acima do país territorial e político, aquele que é construído, lado a lado, com este nas margens do rio do esquecimento que apenas alguns sabem atravessar, e, no entanto, adormecido não morre, esquecido, não esquece, enterrado no passado, reside no futuro.

Este outro Portugal, o do Outro-mundo, o Portugal Maior ou o da Outra Vida de que nos fala António Sardinha não parece ser apenas uma questão teórica ou uma questão de teoria pois vai muito para além de uma especulação puramente formal e racional, não obedece igualmente a um conjunto de princípios sistemáticos e perenes que regem uma Ideia, não há um sistema propriamente dito, porque, de forma serpenteada e sábia, filósofos e poetas sabiamente souberam contornar a “tentação” de elaborar um sistema; não é uma suposição porque a Questão não tem sempre respostas vagas, não é uma tese pois não se defende um ponto de vista perante as batinas dos académicos ou de olhares penetrantes em busca de um erro ou contradição (antes pelo contrário, muitas vezes se foge do academismo como o diabo da cruz), não é um teorema pois muitas das “visões-respostas” sobre o que é Portugal não são demonstráveis num compasso dedutivo antes vindo, por vezes, de intuições rápidas, sentimentais, muito semelhantes à forma como o Espírito Santo sopra. Não é uma questão teórica em definitivo, até porque a teoria, de alguma forma, ou se fica por ela própria ou é impelida para a prática, como a potência para o acto. E os resultados muitas vezes não são nada deslumbrantes.

A Questão de Portugal, roça a utopia quando o sonho se torna tão agudo como uma agulha no cimo de uma montanha, mas não é utopia porque esta traz em si o germe da sua negação. A utopia é um céu congelado e um céu congelado não cabe nesse Outro Portugal. Passa suavemente pelo delírio, esse Outro Portugal, o delírio provocado pelo perfume deveras sentido do jardim plantado à beira mar, um paraíso possível em carne, o delírio de vermos efectivamente Pedro a caçar, Inês a dormir, as naus a avançar. Um delírio que nos remete para o passado, mitificando-o (ou seja, dando-lhe características míticas), repetindo-o em rituais interiores feitos de gestos do pensamento e, mais estranho ainda que um delírio, uma evocação onde entra naturalmente o coração.

A Questão de Portugal está ligada à evocação desse outro Portugal indefinido, esse “deitar profecias à lua cheia” pode ser lido como ter visões em tempo de evocações ou evocar em tempo de visões. Vê-se esse outro Portugal e evocamo-lo. Não há a ansiedade de passar da teoria à prática, há a certeza que esse outro Portugal existe. Existe na esfera do sagrado e é necessário chegar a ele. Existe em movimento, em vida, em criação e em construção perpétua. Tudo ao contrário da questão teórica e até meramente filosófica naquilo que pode ter de especulação sobre o real. Não há uma aplicação teórica, há uma proposta de muitos caminhos para chegar ao Portugal imaginado e todos esses caminhos são abertos pela porta principal da Questão antropológica. Numa linha de Pascoaes abre-se uma avenida de luz no meio da paisagem: “as nações sem alma são simples colónias”; num texto de António Quadros uma advertência: “a antropologia precede a História” e “ não é possível, em suma, indagar sobre o passado sem ter interrogado primeiro o ser do homem e as condições do movimento mental e anímico que orientam, no seu processo, as frustrações e os triunfos dos movimentos sociais ou políticos“; numa frase de Fernando Pessoa um breve e surpreendente atalho: “considerar a Pátria Portuguesa como a coisa para nós mais existente, e o Estado Português como não existente”; num escrito de Leonardo Coimbra, uma orientação com a dimensão de uma vida: “a seriedade e profundidade da alma nacional aparecerá logo que esta consiga furtar-se à fascinação dos figurinos estrangeiros. Como quebrar o encanto? O poeta, o pintor, o músico devem procurar dar ao povo português a sua alma verídica!”, e assim sucessivamente. Cada desvendador de Portugal é um batedor na selva dos enganos daquilo que se poderia tomar por um simples país, igual demais aos outros e é ,em simultâneo, graças às revelações que vai tendo desse Portugal Maior, seu profeta. O que é deveras estranho uma vez que a Era da Profecia parece ter acabado por volta do século VI a.C. e, para nosso bem, não há dúvida que nesse aspecto somos um país atrasadíssimo, retido nas malhas de um tempo há muito esquecido.

O processo profético em Portugal passa pela palavra e ainda por uma consciência do tempo diferente da contagem decrescente dos relógios digitais o que terá como consequência uma estranha forma de vida.
A palavra tem a dupla função de materializar as visões dos ângulos desse Outro Portugal e em simultâneo, de alguma forma, o ir criando. É um processo místico onde céu e terra participam: Hildegarda de Bingen, visionária medieval, afirmava ter visto a cidade do céu em construção. A cidade celeste, que julgávamos definitivamente erguida está afinal em construção. Esta afirmação obriga a rever em parte a noção do mundo das essências de Platão, onde os modelos/arquétipos nos surgem como perfeitos, acabados e inalteráveis noutra dimensão. Estará o céu em construção ou estará apenas semi-construído? A geografia celeste está em movimento? A resposta alquímica “o que está em cima é como o que está em baixo” oferece, pela, sua abstracção, uma resposta intermédia: nem totalmente construído nem, paradoxalmente, totalmente imperfeito. O Portugal imaginário é imaginado pelos nossos pensadores e, conforme o seu grau de pureza, cabe ou não nessas esferas celestes. Esse Portugal é o “país das horas aparentes”, para citar Álvaro Guerra. Aqui, no Portugal íntimo, não há horas para quem nele nasce e vive. Não há tempo. A lua como medida dos ciclos, o sol como medida dos dias são apenas a aparência cósmica, a camuflagem de um país que já não é de um mundo de grilhetas e gerador do tempo. Saturno está em festa, afastou-se de Chronos e abraçou Kairos gozando os dias de ouro. Aqui, onde se agitam e repousam as canetas dos poetas e filósofos não há passado nem futuro, nem compromisso entre memória e sonho, porque a memória é o seu sonho e o seu sonho a sua memória. E a única história possível é a do futuro.

A percepção deste outro tempo onde não há horas passa pelo fenómeno da iniciação e da irmandade, ambas geradas na naturalidade e a caminho da sobrenaturalidade. É tentador pensar numa linhagem iniciática em Portugal que passe por ordens muito mais-do-que-secretas e, quiçá, perfeitas, palavras-passe e senhas cuja criptografia nem os melhores cabalistas possam decifrar. É tentador pensar sempre numa espiritualidade, de alguma forma, materialista, que seja visível, palpável, agarrada, escrita e que sobretudo tenha um dono dessa verdade encontrada. Há um acontecimento recorrente ultimamente a que se pode chamar “a propriedade da verdade”: não é a verdade encontrada que verdadeiramente interessa, mas sim, o dono da verdade, aquele que a descobriu e a possibilidade que este tem de ser uma “estrela” no mundo das descobertas. Convinha, para esses casos, lembrar que na Idade Média, a obra falava mais alto que os homens, e as suas mãos nada assinavam, não assassinando assim o verdadeiro propósito do seu gesto: a glorificação de algo maior do que si próprio.

O rito como possível porta para uma iniciação está hoje bastante limitado por fenómenos poluidores. Essa poluição contemporânea (que também é física…) pode ter como base a existência ou não do próprio mito que, como se sabe, é a base de qualquer rito. O sincretismo em espiral feito a partir de diversas religiões (fenómeno crescente para qual nos chamou a atenção René Guénon) sobretudo a partir do século XIX com a explosão de uma antropologia eufórica nascida do deslumbramento pelas leis positivistas suscitou, nalguns espíritos, um desejo de uma simplificação que condensasse diversas doutrinas tornando os mitos e personagens míticas existentes em estranhas formas de religiosidade, unidos numa série de correspondências que partiam sobretudo do seu lado mais visível e exterior quando, na origem, estavam inseridos em espaços, tempos e culturas muito próprias. É assim que Isís, é afinal, Diana, que é Vénus que é Kali que está ligada à Deusa Mãe correspondendo à Virgem que é também a mulher interior que há em nós e ainda a “anima” dos homens, enfim, nem o caldeirão dos druidas levava tantos condimentos da mesma espécie. É tudo reunido e bebido de um trago e o individuo, uma vez imbuído de este estado de embriaguez mítico-sintética, pode, enfim, criar um rito aproveitando cacos dispersos de histórias soltas como uma espécie de arqueólogo apressado com o desejo absoluto de reconstruir e ressuscitar uma civilização inteira a partir de meia dúzia de pedras.
Em primeiro lugar nem todos os antigos ritos fomentavam o fenómeno da iniciação. Muitos eram ritos que procuravam a continuidade de uma certa normalidade da natureza e dos homens, inseridos numa consciência do tempo cíclico. Em segundo lugar, a iniciação pressupõe sempre uma ruptura, como tão bem nos ensinou Mircea Eliade.

Não há mitos novos, nem se criam mitos e muito menos se criam mitos a partir de fragmentos de outros mitos. Em Portugal, o que se vive é uma consciência mítica perante a História o que permite aos seus filósofos, escritores e poetas irem alimentando de alguma forma, esse Outro Portugal que vive numa esfera mítica, e, pela lei natural, aquilo que é alimentado, permanece vivo. É essa consciência mítica, e não qualquer fenómeno ritual exterior, que permite a iniciação em Portugal. O exercício da imaginação tem um papel decisivo na iniciação portuguesa pois toda essa consciência mítica tem lugar num espaço e tempos imaginários e obriga a rupturas internas com antigas formas de vida e de pensar, podendo haver, na maioria dos casos, intervenção de um terceiro elemento nesse diálogo entre o homem e aquilo que imagina. Esse terceiro elemento é, de facto, sobrenatural. A consciência mítica leva a rupturas internas (características da iniciação) e que, por sua vez, conduzem à intervenção, ou ao sublinhar de forças sobrenaturais que de alguma forma legitimam o percurso iniciático. Da mesma forma que o grau de pureza do Portugal imaginado, leva a que este caiba, ou não, nas esferas celestes. É no centro da ruptura ontológica que reside a evocação e isso, na sua veracidade, ou é extraordinariamente difícil de fazer (se se partir de um gesto voluntário e premeditado, no caso da iniciação ritual) ou é tão fácil como tomar um copo de água (se for um gesto interior absolutamente espontâneo, desapegado, como é o caso da iniciação mística). Em Portugal as palavras, os silêncios, a geografia e a arquitectura antiga são a verdadeira sociedade secreta que alguns procuram nas fatiotas e gestos rituais improvisados e apressados. São estes factores os testemunhos de uma consciência mítica. E quem participa nessa consciência está sujeito à iniciação e a entrar numa espécie de irmandade que vive não da semelhança entre irmãos, mas sim, da sua absoluta diferença e originalidade interiores embora participando de algumas memórias semelhantes, de alguns sonhos, de alguma religiosidade, de uma sensibilidade face às mesmas questões (mitemas nacionais, messianismo etc) conduzindo à partilha dos mesmos símbolos nas formas de expressão e ainda da consequência, quase inevitável, de uma súbita intervenção do Espírito Santo. E tudo isto conduz a uma estranha forma de vida. A uma forma de vida dupla devido a uma consciência de missão, sem fanatismo ou vaidade, uma forma de missão cujo único compromisso está na obra que se deixa para trás na hora da morte.

Fernando Pessoa teve consciência de tudo isto, e, naturalmente, por ser livre, único e original, brincou com tudo isto: ao dizer desejar ser um fazedor de mitos, dizia, por outras palavras que alimentava um mito e chamava a atenção para o facto de se poder ou não criar mitos, e brinca ainda mais (destruindo por completo o materialismo espiritual) quando escreve: “A Ordem de Cristo não tem graus, templo, rito ou passe. Não precisa reunir, e os seus cavaleiros, para assim lhes chamar, conhecem-se sem saber uns aos outros, falam-se sem o que propriamente se chama linguagem. Quando se é escudeiro dela não se está ainda nela; quando se é mestre dela, já se lhe não pertence. (…). Não se entra para a Ordem de Cristo por nenhuma iniciação, ou, pelo menos, por nenhuma iniciação que possa ser descrita em palavras. Não se entra para ela por querer ou por ser chamado; nisto ela se conforma com a fórmula dos mestres: “quando o discípulo está pronto, o Mestre está pronto também. E é na palavra “pronto” que está o sentido vário, conforme as ordens e as regras.

Fiel à sua obediência - se assim se pode chamar onde não há obedecer - à fraternidade de quem é filha e mãe, há nela a perfeita regra de Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Os seus cavaleiros - chamemos-lhe sempre assim - não dependem de ninguém, não obedecem a ninguém, não precisam de ninguém, nem da Fraternidade de que dependem, a quem obedecem e de que precisam. Os seus cavaleiros são entre si perfeitamente iguais naquilo que os torna cavaleiros; acabou entre eles toda a diferença que há em todas as coisas do mundo. Os seus cavaleiros são ligados uns aos outros pelos simples laço de serem tais, e assim são irmãos, não sócios nem associados. São irmãos, digamos assim, porque nasceram tais. Na ordem de Cristo não há juramento nem obrigação”.

 A brincadeira de Fernando Pessoa é de uma ironia séria ou de uma seriedade irónica. A noção de irmandade surge como consequência da iniciação interna e não ao contrário. E a matéria prima do rito interior reside nesse Outro Portugal cujos símbolos vão ficando gravados, de geração em geração, na presenças de indivíduos que influenciam outros, nas palavras que se deixam escritas, nos silêncios partilhados, na pedra, na geografia diversa e na intervenção do Espírito Santo como fonte da iniciação desse e nesse Outro Portugal e seus criadores.

Lisboa, algures num mês de 2008

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