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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

SABEDORIA ANTIGA, 4



Alexandra Pinto Rebelo

Foi-me mostrado, desde sempre, que o mundo clássico, isto é gregos e romanos, tinha um sentido religioso um pouco perturbador.
Aquela gente, capaz de escrever verdadeiros monumentos tais como a "Íliada" ou a "Eneida", referências literárias de uma Europa que ainda não se cansou de as estudar; capaz de lançar alicerces fortíssimos tais como o conceito de democracia, os preceitos da filosofia, da história, do direito e tantos outros; poetas-intérpretes tão sublimes da alma humana que, até hoje, ainda usamos os seus mitos como legendas grandiosas da nossa pequenez tais como o "complexo de Édipo", a "caixa de Pandora", o "calcanhar de Aquiles"; artistas tão surpreendentes que, passados quase mil anos de silêncio, conseguem ressurgir em indicações estéticas para o Renascimento... aquela gente, dizia, que fez tudo ou quase tudo em grande o que uma grande civilização pode fazer, tinha apenas um instinto religioso primitivo, ramalhete de terrores inspirados pelas severidades atmosféricas e de loucuras desculpadas pelos estados psicóticos induzidos.
Nesta leitura há qualquer coisa, então, que não encaixa. Não é necessário pensar muito para compreender que a antiguidade clássica foi julgada pelos vencedores, ou seja, pelos cristãos. Pela segunda vez na história reforçava-se a ideia de que só existia um deus verdadeiro. A minha expressão "reforçar a ideia" é, claro, um eufemismo. Existindo só um deus, todos os outros se tornavam falsos, por seu decreto. Os adoradores dos outros, podiam tomar vários adjectivos desde os mais simpáticos como patetas, aos mais benevolentes, como iludidos, até aos mais perigosos, como heréticos. Estes adjectivos mais perigosos eram geralmente acompanhados de uma acusação que levava à morte. O percurso até ela era, geralmente, muito humilhante, perturbador e doloroso.
Pretendo com tudo isto deixar só uma pequena nota, por hoje. em relação à religião clássica. Aquela gente que a praticava tinha exactamente os mesmos instintos religiosos de todos os povos. Os seus deuses funcionavam tão bem como os de quaisquer outros. Torna-se comovente para nós, hoje, lermos as suas inscrições nos templos. Podermos partilhar dos seus desejos íntimos, do seu louvor, dos seus desabafos para com os seus deuses é uma espécie de bênção.

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