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quinta-feira, 14 de maio de 2009

PENSANDO À BOLINA, 16

Pedro Sinde


Second life: a vida que não se vive ‘aqui’ para viver ‘lá’
Tanto por natural compleição, como por formação, desconfio dos “progressos” daquilo a que se chama “novas tecnologias”, por oposição às velhas e, graças a Deus!, arcaicas técnicas artesanais. Não creio que com isso o homem ganhe alguma coisa de essencial e, antes pelo contrário, estou mesmo convencido que com isso perde ou de que isso é sinal de que já perdeu qualquer coisa de vital.

Por esta razão, já fui acusado, por incompreensão ou má vontade, de querer regressar ao passado. Não pretendo de modo algum voltar atrás – o que, de resto, seria um absurdo lógico até –, porque acredito saber que cada um de nós vive no tempo que escolheu viver. Há quem muito se lamente do tempo em que vive, correndo o risco de se tornar como aquele soldado a quem o general entregou a difícil missão de ir para a linha da frente e, uma vez lá chegado, sentou-se a resmungar com as condições que encontrou e se esqueceu, desse modo, de cumprir a alta e difícil missão para que foi especialmente eleito.
Não acredito na opinião ingénua de que tudo depende da utilização que se faça das “novas tecnologias”, por exemplo, da internet (alguma coisa no fundo de mim me alerta para a perversidade do meio em si mesmo independentemente do tipo de uso e a razão me convence que é assim). Sei que alguma coisa de mim estou a dar ao cão ao utilizá-la. Mas tudo tem um limite.
É aqui que começa o tema deste texto: o second life. Diz-se assim à inglesa como se não houvesse tradução para português; é por esse modo que se vai ocultando ou o ridículo ou o sinistro que se escondem por trás de expressões estrangeiras. Devemos dar-nos ao trabalho de traduzir. Pascoaes, o grande Pascoaes, chamava ao futebol o bola-pé; mostrava, por este modo, o ridículo que o termo inglês esconde – dito assim, bola-pé, logo se vê que se trata apenas de um jogo infantil que não devia ter mais importância do que esta: a de ser um jogo infantil. Está bem que um adulto brinque a um jogo de crianças, às vezes isso é saudável, momentaneamente, mas se esse adulto não faz nem pensa outra coisa – como se vê e ouve tanta gente –, então isso é já um caso de psiquiatria. Fisiologicamente é um adulto, mas cujo crescimento psíquico bloqueou a certa altura da sua maturação, tendo ficado fixado no jogo do bola-pé. Se em vez do bola-pé disséssemos o jogo da macaca, logo o leitor veria que se trata de um caso patológico: imagine um país que pára para ver um grupo de pessoas a jogar a macaca e terá todo o ridículo da coisa.
Os leitores de René Guénon, que foi quem claramente ou de um modo mais sistemático alertou para este tipo de coisas, não poderão deixar de ficar inquietos ao verificar a macaqueação que acontece com esta coisinha a que chamam a segunda vida. Trata-se da macaqueação e mesmo, o que lhe confere um carácter particularmente sinistro, de uma apropriação do mundo a que a tradição tem caracterizado, na pluralidade dos mundos, como aquele em que o nosso destino se decide de modo mais difícil, onde estamos mais desamparados, isto por ser aquele em que a ilusão pode ser maior. Podemos chamar-lhe o mundo subtil, mundus imaginalis, malakut dos sufis ou yezirah dos cabalistas. É sempre o mundo das almas, aquele lugar onde nos encontramos antes de nos encontrarmos neste nosso mundo.

Na imagem: Anunciação, de Fra Angelico (aprox. 1400-1455)

Este mundo subtil, particularmente bem caracterizado por Henry Corbin e descrito por dentro, digamos assim, por Pascoaes, é o mundo onde os corpos se espiritualizam e os espíritos se corporalizam. É isto, mas às avessas, o que acontece na segunda vida, onde o bonequinho, a que sinistra e erradamente chamam avatar, dá a ilusão de ser uma projecção astral, para me servir de uma linguagem que por ser ocultista mais pessoas julgam compreender, daqueles que por lá andam; trata-se na realidade de um bonequinho grotesco (chegará o tempo em que esse bonequinho vai ser a três dimensões e surgirá como uma aparição ente nós). Por ele, através dele, pode cada um levar até onde quiser as suas fantasias – desde as mais razoáveis (se se pode falar em razoabilidade dentro de domínios tão infantis) até aos devaneios do tarado. Ali, finge-se que se vive em “outra vida” o que não se vive nesta. Ali, se pode dar azo ao nosso “ser verdadeiro”, que ali não é mais do que o corpo de desejo levado ao paroxismo da demência.

Ali até temos aquela característica paradoxal, própria do mundo subtil, que é a de as coisas terem espaço mas não ocuparem espaço.

Dir-me-ão que se trata apenas de um mundo virtual. Sim, mas esse “mundo” existe realmente desde que tenha existência mental, isto é, passa a existir a partir do momento em que alguém lá entra e “anima” o bonequinho. Aquele que está sentado em frente ao monitor (devemos ter em mente que dizemos “ecrã” para a televisão, mas “monitor” para o computador!) do computador a andar com o bonequinho dentro da outra vida está a realizar o processo de dar alma a esse bonequinho: é um processo bem conhecido no mundo da magia como um fenómeno de vampirização – dando alma ao boneco, pensam controlá-lo, mas na realidade estão já a ser controlados pela entidade ou egregora, essa sim, subtil. Cada um destes aspectos devia ser desenvolvido particularmente para que se pudesse avaliar todo o alcance, mas isto exigiria um espaço que aqui não queremos ocupar. A perversidade de tudo isto é esta possibilidade extrema: julgando-se livres e procurando a liberdade ou a “libertação” desta vida onde não se realizam, eles tornam-se presos – quanto mais livres se julgam, porque podem fazer o que querem, mais presos estão, fechados num inferno com aspecto que aos seus olhos se reveste de formas paradisíacas.

Deus nos colocou neste mundo; nele estão contidos todos os outros em interacção permanente. Não precisamos de mais nada. Alguma coisa vai muito mal quando as almas não sentem já um deslumbramento tal por este mundo que não precisem de paraísos e infernos artificiais. Criar a aparência de um mundo que nos separe deste em que vivemos é o ideal do diabo, e por um modo tal que nós nem nos apercebamos disso. Mas quem acredita ainda no diabo?

Peço a Deus para estar errado nestas palavras, porque só ele verdadeiramente sabe e quero crer naturalmente na sua providência que escreve certo por linhas que nos parecem tortas.

2 comentários:

  1. Já não são apenas fissuras na "grande muralha"...

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  2. Belíssimo texto. A questão das 'avessas' e do 'torto', sombra.

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