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terça-feira, 23 de junho de 2009

A DOR E O AMOR, 2

João de Deus
(Biografia espiritual)
A arte, quando grande, é religiosa e panteísta. Sente infinito, exprime infinito, sugere infinito. Universaliza indivíduos, evapora números, eterniza momentos. Chega à unidade, toca na essência. Eucaristia sublime, mistério esplêndido, inefável! Deus a cantar no som, a brilhar na cor, a desenhar-se nas formas! Sim! a arte é Divindade, encarnando em música.

João de Deus imortalizou-se, porque nas horas puras e sagradas viveu a vida infinitamente e divinamente, traduzindo-a em cânticos celestes, em melodias mágicas de luz.
Diante dele, o universo maravilhoso, criado por Deus, move-se em Deus, mas a expressão suprema do Divino radia na beleza deslumbradora e fecundante, na graça da amante, na mulher. O centro do mundo de Deus é o beijo de amor, divinizado. Mas, no Campo de Flores, a mulher não se chama Laura, Beatriz, ou Natércia. Não é a paixão singular e soberana, o amor único à mulher única, rasgando com um sulco de fogo, da mocidade à morte, a vida inteira.
Em João de Deus há um árabe voluptuoso, pela carne, e um cristão sem mancha pelo espírito. Toda a mulher formosa lhe leva beijos e canções.
Mas a poligamia da volúpia, continuamente idealizada e sublimada, unifica-se e resolve-se, ao cabo, numa só imagem espiritual.
A mística amorosa de João de Deus tem graus ascendentes de elevação e perfeição.
Primeiro grau: Vê a mulher, é bela, deseja-a. Deseja-a com lascívia, mas sem brutalidade, sem violência. Um galanteio espontâneo e perpétuo, um madrigal contínuo, gracioso e mimoso, florido e ridente. Coisas lindas, mas tudo medíocre, passageiro. Arte efémera. Anedotas.
Segundo grau: O desejo voluptuoso purifica-se, espiritualiza-se, idealiza-se, e o frémito biológico termina em êxtase, no céu. A canção evola-se em oração, e a alma liberta, na asa do amor, ergue-se a Deus, perde-se em Deus.
Terceiro grau: A mulher ideal, cada vez mais bela, mais radiante e mais pura, santifica-se. Ainda corpórea, o desejo sonha-a… sonha-a, de leve, mas não lhe toca. Quem há-de ousar?!... Jamais! Inviolável! É flor sagrada, lírio do Éden! Mulher-estrela, mulher-anjo! Cantá-la como? Adorando-a. Possuí-la quando? Na eternidade, em Deus, na Glória, vencendo a dor, vencendo a morte. O beijo de núpcias é o beijo infinito, o beijo de duas almas para sempre!
Quarto grau: A mulher-alma desencorpora-se, diviniza-se, deifica-se. É graça, piedade, dor, amor, misericórdia, a Virgem das virgens, a Mãe de Cristo, a Mãe de Deus! É Deus em mulher, é Deus no feminino.
Quinto e último grau: O poeta religioso, liberto do mundo, uniu-se a Deus. União verdadeira, fusão suprema? Não. Só chegam a Deus os que levam no coração, como um filho gemendo, o universo inteiro. Os que transportam no seu amor, banhando-a de lágrimas, a dor infinita da natureza. Na obra do poeta há ainda um vazio, uma lacuna. Falta-lhe o berço. E então o santo inclina-se para a natureza, ergue nos braços a humanidade, agasalha no peito a infância humana, e cantando e chorando e rezando, lá vai com ela para Deus. E, quando o amor eterno vencer a dor eterna, existirá em Deus eternamente. Bendito seja!
1910.
Guerra Junqueiro

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