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segunda-feira, 5 de abril de 2010

FREI AGOSTINHO E A ARRÁBIDA, 1*

Aqui, «nesta final praia oceana» – em caminho de penitência, através de três rios e duas serras portuguesas, se realizará por Fr. Agostinho da Cruz (1540-14-III-1619), a regeneração de seu corpo mortal. Esse começo dum percurso numa terra-mãe e suas etapas, o dirá na sua poesia: «Na ribeira do Lima fui nascido / Na do Mondego e Tejo fui criado / E na serra em que vivo envelhecido, / Onde esperando estou o desejado fim de meus longos anos.» Até esse dia, em que «os correios da morte são chegados / Por caminhos antigos, impedidos».
Homem e terra saudosos do céu, ambos através do eremita franciscano, em seu corpo e alma, realizarão um lento despojamento e uma assunção, como processo que se faz no interior da alma, fora do tempo e espaço, mas que, simultaneamente, se faz no corpo dum homem e duma terra, a portuguesa: deste despojamento de ambos, serão as marcas deixadas na sua poesia. «Alheio do passado e do presente / Sem lhe dar do que vai, nem do que vem / Quieto, vive só, livre e contente, / Com plantas e com feras conversando, / Não conversando amigo, nem parente.» Despojamento do mundo e dos homens; e nestes, para além da grande e fiel amizade dos Duques de Aveiro; amizade que o acompanharia através de toda a vida sobre a terra, até ao seu último momento, em Setúbal, mas que em presença, teria de ser abandonada, para a procura suprema doutra suprema presença, a de Deus. «Nestes campos do Tejo onde cheguei / Achei graça, bom rosto e gasalhado» (Carta À Duquesa de Aveiro).
Deixando o efémero pelo eterno, «Largos campos do Tejo, / A cuja vista crescem / Tristes queixumes de cruéis lembranças; / As flores que em vós vejo, / Alegres me entristecem / Por ver que são sujeitas a mudanças» (Ode I. As mudanças do tempo): será a verdade só, para além da aparência dos fenómenos, aquela que o poeta procurará neste percurso através dos rios e das serras, até ao limite duma terra pátria e dum eu exterior, como serra a pique sobre o Atlântico e fundo de sua alma.
As terras de sua infância e mocidade, como as zonas desse eu exterior, serão abandonadas. «As ribeiras não são para pastores / Cujas palavras mostram as entranhas / Cujos olhos não vêem fingidas cores» (Écloga IV). Um ser especial da terra com seu reflexo no homem, ser feito de carnalidade, doce plétora, como etapa ou camada duma phisys, urge ultrapassar no exterior, quando em si o homem já a ultrapassou no interior: «Pelo menos sequer, não me faltará / Saber que da ribeira me convinha / Fugir, pois para mim já se secara.»
E nessa subida, deixa as ribeiras húmidas, antes de atingir a serra alta, solitária e fragosa suprema, a da Arrábida: «Deixei (que mais não pude) / A branda Serra / Que para brandos peitos se criou / Quem com duros a dana, inda mais erra»; assim o poeta confirma essa fugida de Sintra e essa procura da Arrábida, na Carta que o Autor escreveu à Duquesa de Aveiro antes de se ir para o Ermo.
A natureza essencialmente feminina dessa serra primeira, lunar, líquida, enleante, não possuiria em si a possibilidade de transcensão do terrestre e do humano; ou de sua junção com o celeste e o divino solar, ígneo, activo e masculino, que só a segunda serra deste percurso de santidade, em si possuiria e concederia ao eremita de S. Francisco. Por isso, será para ela que a saudade o conduzirá. Depois de curta estadia, com o cargo de guardiania, no Convento de S. José de Ribamar, parte aos 65, em 1605, para o ermo da Arrábida, com licença de seu Provincial: «Que posto que de mim absente estejas / Daqui te levarei por esta Serra / Por parte donde o céu mais perto vejas.» E desde então, tudo será vivido como um regresso ao centro, primeiro e último: regresso ao Paraíso. Assim o canta A Nossa Senhora da Arrábida:
«Aqui, Senhora minha, onde soía / Cantar na minha leve mocidade / O muito que de vossa saudade / Desejei d’acender nesta alma fria: / Aqui torno outra vez, Virgem Maria (…) Conselham-me tão claros desenganos / Que comece de novo nova vida / Neste Serra deserta, alta e fragosa.» E toda a subida e chegada às portas do céu, se fará por essa força da saudade, como força de união de opostos: opostos só aparentes, pois em si complementares verdadeiros: «A saudade d’alma a vós devida / De vós, Senhora minha, se sustenta (…) Servir-vos é viver suave vida / Doce, quieta, branda, livre, isenta.» Este é o louvor cantado À Senhora da Memória, aquele que realiza o regresso a Deus, ou centro, onde todos esses opostos se anulam, ou unem na identidade primordial:

No meio desta Serra onde se cria
Aquela saudade d’alma pura,
Que no duro penedo acha brandura
Ardente fogo dentro n’água fria.

(Na Serra da Arrábida)

Atingido o centro, ou o Ser, tudo o mais que se poderia prender, agarrar ao ser do eremita, impedindo-o nesta subida suprema, será largado, abandonado: «Nem ter, nem valer, mais me faz cobiça / Tanto me dá que vá, com o que venha / Por mais que este me assopre, estoutro atiça» (Écloga VII). Apatia última, estado de libertação, impassibilidade, neste despojamento e domínio supremo de si mesmo.
Falando de sobriedade, Philoteu o Sinaita, monge do mosteiro de Batos, no seu texto inserto na Filocalia, dirá: «pois que ela trabalha e lustra os traços de nosso espírito e o faz passar da condição apaixonada à impassibilidade.» Onde mesmo, para além dos bens materiais, os espirituais não serão também desejados, assim como representações, iluminações. E o capuchinho da Arrábida: «O que dos vícios d’alma anda cingido / Como néscio responde, que também / S’há-de salvar calçado, e mais vestido / Bem pode ser que seja; mas porém / O que mais leve vai, melhor caminha / E mais pode inda mais passar além.» Livre, supremamente livre de todos e de tudo o mais, humano e mundano, tão leve que só o silêncio final perdurará. O dirá na Écloga Piscatória XI:
O pescador debaixo do seu leito
Depois que deita ferro no remanso,
Manso discurso faz no manso peito.
O silêncio lhe dobra seu descanso;
O pouco que deseja não lhe faz
Cobiçar melhor sorte em melhor lanço.
Os seus dois remos rema em sua paz,
Que não deixa nas mãos do companheiro,
Que deles mais que dela foi capaz.
Recolhe-se em qualquer pequeno esteiro;
Que pouca água demanda o barco leve
Que levemente leva um só remeiro.
Nessa paz e silêncio já celestes, da vida solitária e ascética, liberdade divina, como vitória atingida e concedida, em graça, tudo será uma redenção do homem, solidária com a redenção da natureza: o eremita atingindo a paz e a serra atingindo a brancura, como estado ou cor primeira e última, de iniciação; ou escatologicamente, como marca da Idade de Ouro; paz e brancura, vivida e revestida pelos santos e mistos. «Dos males, que passei no povoado, / Fugi para esta serra erma e deserta, (…) Passou a furiosa tempestade, / Ouve-se a voz da rola em nossa terra, / Soando com mais suavidade / Cobriu-se d’alvas flores toda a Serra / A minha alma de doce saudade, / Em paz me fez amor divina guerra» (Ao Mesmo – Da quietação).
(continua)
Dalila Pereira da Costa
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* excerto retirado de Místicos Portugueses do Século XVI, livro publicado pela autora em 1986, com a chancela da Livraria Chardron de Lello & Irmão – Editores, Porto.

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