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terça-feira, 31 de março de 2009

EXTRAVAGÂNCIAS, 7

O Pedreiro
por Cynthia Guimarães Taveira

Terá sido em vão
Que ergueste as pedras?
E com elas um povo
Uma coroa de pétalas
E asas de lírio?

As tuas mãos tocaram-nas
Imprimiste quem eras nelas
Deixaste o teu canto gravado
Em conchas, búzios e algas
Em sinfonias de um sonho
Em frutos, anjos
E folhas, folhas de almas

Depuseste no templo o teu castigo
Sublime castigo
Como quem entrega a verdade

Essa pedra de raiz e saudade
Brota de um universo sem idade

Terás chorado sobre essas pedras?
E que socalco terão deixado as tuas lágrimas?
Será essa fenda aí ao lado
Ou aquela outra que ficou na noite?

Terás parado por um instante?
O martelo o esculpro, em silêncio
E em frente ao mar terás ficado
Curvado para cima
À luz de um céu distante?

A cada compasso e régua
Terás medido um sonho em pedra?
E do mesmo modo e ao mesmo tempo
Terás sentido a alegria fraterna?

Essa que afaga os fornos
Dos corações desejados
Essa que encarna diabos
Em anjos mal disfarçados

Terás gozado essa brisa
Pela manhã de quem cedo se ergue?
Ou terás pensado no infinito sol
Que não se apaga, apenas ferve?

Essas cúpulas e torres
Trespassam a linha do céu
São portais para o que não há

Terás passado essa fronteira breve
Deixando o túmulo, a lança e o leme?

Que te embala agora do outro lado?
A missão cumprida num sorriso
Será o teu rosto que vejo agora
Ali, debaixo daquele friso?

Em atenção me pergunto
Se as tuas mãos permanecem em pedra
Será o teu símbolo que me evoca
Ou a chama que esculpiste em demanda eterna?

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