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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

RAZÃO POÉTICA, 6

Gramática Secreta da Língua Portuguesa [3.ª parte]

Na coluna do meio, descem e sobem as palatais; na coluna da direita, as labiais; na coluna da esquerda, as dentais.
Este ajustamento perfeito à árvore sefirótica, pelas três colunas, pelos dez elementos, pelas vinte e duas consoantes, vem-nos mostrar, com o exemplo da língua portuguesa, que se enganaram de todo em todo os linguistas ao porem de lado os ensinamentos da kabbalah por incompatíveis com o rigor da ciência. Estamos aqui perante um dado positivo, que nos enche de confiança e de fé numa sabedoria que importa encontrar para que a ciência não fique só no dado e chegue a justificar-se a si própria.
Na língua portuguesa predominam as vogais e os ditongos. O ritmo é grave.
Depois da grande ruptura, no reinado de Manuel Primeiro, tem-se vindo progressivamente a perder a sonoridade vocálica e uma avassaladora consonantização da fala põe em perigo a própria subsistência da língua. Tal degenerescência pode ser explicada como uma reacção de defesa contra a acção dos vários regimes policiais que sucessivamente se abateram sobre os portugueses. O medo de ser percebido pelos que estão sentados na outra mesa é uma situação típica dos últimos cinquenta anos, o que prova ter sido apenas aparente o desaparecimento da Inquisição, pois reaparece noutras vestes o mesmo espírito adversário da liberdade.

Nas Gramáticas do século XVI, nos nossos primeiros compêndios de gramática, lê-se a apologia de uma língua em que todas as vogais eram sonoras, mesmo até as de fim de palavra, em contraste com as línguas do Norte da Europa, onde predominam as consoantes.
Câmara Júnior indica sete vogais no português, aquelas que podem formar uma sílaba tónica, aquelas que têm direito a ser chamadas de vogais porque comandam o ritmo grave do discurso. São o A, o É, o Ê, o I, o O, o Ô e o U.
Segundo Helmut Lubdtke, as vogais portuguesas dispõem-se na seguinte dupla escala



Numa e noutra direcção se formamos vários ditongos, cujo ciclo de geração se fecha e torna perfeito pelo ditongo ui/iu que liga os dois extremos.

Platão no Crátilo, e também no Theeteto e no Sofista, refere-se à vogal como àquela potência que circula entre as consoantes, as envolve e as penetra, enlaça umas com as outras. Os gramáticos medievais chamavam às vogais «potências». As consoantes, seriam os «actos» dessas potências.
Com efeito, podemos ver nas consoantes as formas que as vogais assumem conforme o ponto e o modo de articulação.
No primeiro, superior triângulo, explodem, no segundo incorporam-se em sopros, no terceiro vibram. Deste ponto de vista, que é de Platão, as vogais são a alma da língua. O filósofo grego refere-se ao ser em movimento, ao ser, o primeiro dos grandes géneros, na medida em que identifica ón a íon.

É esta também a razão por que não figura na árvore sephirótica. Estão em toda a parte e em parte nenhuma. Poderíamos, no entanto referir o A a keter, o I a tiferet e o U a malcuth.

O A, o I e o U formam o triângulo das vogais puras.


O leitor que nos lê é natural que, desde trás, tivesse começado a descrer de uma teoria dos fonemas que, embora assente em dados positivos irrecusáveis, se afigura no desenvolvimento e aplicação demasiado fantasista. Eis por que importa reflectir.

Não se trata de uma simbólica das letras, como à primeira vista se julgará, análoga à que se poderia construir utilizando, por exemplo, linhas ou cores em vez de letras. Não é uma simbólica, porque os elementos não são figuras sensíveis. Não são aistheta, mas noêtá. São direcções do espírito do homem, a imanência nele das formas transcendentais, que nada simbolizam porque são o que se simboliza. Podemos imaginá-las como traços repentinos, como grammai. Os elementos são indivisíveis e invisíveis. Só o visível simboliza.
Quando escrevemos, por exemplo, que o U exprime a essência da treva, já não estamos a falar do elemento U, pois ele não representa, mas é essência. Somos obrigados a simbolizar, porque nos situamos, em certo sentido, num ponto de vista exterior. O contacto imediato com o elemento, aquela visão directa das essências, a que se refere Platão na Carta VII, é que é o supremo conhecimento. Se conseguimos esse contacto, e com mais nada ele é possível, porque mais nada existe de não simbólico além dos elementos, senão Deus que os criou, formou e fez, a necessidade de haver símbolos apenas se põe como uma exigência da comunicação indirecta.

Tudo no Universo se organiza sobre os dez elementos. Para quem os conhece, as letras aparecem, não como símbolos, mas como o fundamento sem o qual o símbolo não é possível. Quando muito, o A, o I, o B ou o C poderão ser vistos como os símbolos de si próprios, aos quais terão de ser referidas todas as demais figuras sob pena de não terem sentido nenhum.

Daqui a importância de determinar a gramática secreta de uma língua, o modo como nela se manifestam e articulam os elementos e nela vivem.
Antecedentes: 1.ª parte; 2.ª parte
António Telmo

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