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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O PASTOR DE ESTRELAS, 1

Nota bibliográfica
Joaquim Domingues

Pastor de Estrelas, de Avelino de Sousa, constitui uma composição poética, sob a forma de tríptico, de que saem agora a lume o primeiro e o segundo livros. O terceiro, sob o título Bosque Cerrado, veio à luz em 2003, em edição assaz restrita. Composição poética em prosa e verso, diga-se, mas também inspirada e meditada; que as discriminações clássicas, académicas ou escolares não têm primazia sobre o livre adejar do espírito.
Embora conhecida e reconhecida, premiada até, a arte de Avelino de Sousa não sacrifica às modas literárias o ofício das musas, o vetusto culto prestado às divindades da roda de Apolo, atributos da luminosa sabedoria descida do alto. O ensurdecedor ruído que nestes dias perturba a clara audição dessa música sublime explicará talvez a discrição do autor. Se o inesperado só se revela a quem o espera, conforme o dito de Heraclito, não basta estar atento, acordado, pois cumpre estar acorde, aperfeiçoar a afinação interior sem a qual nenhuma ressonância sairia das cordas da lira.
Aos cinco títulos publicados em livro por Avelino de Sousa – Nostalgia, edições Vega, Lisboa, 1988; Retratos Apócrifos, seguidos de Doze Canções, Átrio, Lisboa, 1991; Folhagem de Sombras (sob o criptónimo Nuno David Elias), Universitária Editora, 2000; Poemas, edição do autor, Pinhal Novo, 2005; e o já referido Bosque Cerrado, M J Real imo/edição do autor, Setúbal, 2003 –, acrescem os textos dispersos em publicações periódicas dispersas – ‘Arca do Verbo’, de O Setubalense; Sirgo, de Castelo Branco; Colóquio/Letras, de Lisboa; Teoremas de Filosofia, do Porto; Cadernos de Filosofia Extravagante, de Vila Viçosa… Abundante como é a nossa literatura poética, raro se lê uma arte tão rica na forma quão ampla no horizonte e elevada no tom, onde nada falta do que de essencial cumpre atender. Ao sopro da sua voz, a razão se dilata e exalta, sem refugar a natureza e a humanidade, que é como quem diz, a transitória dor e o contingente mal, que são o aguilhão do poeta.
Se os volumes anteriores saíram sóbria, mas cuidadosamente ilustrados – o segundo com um desenho do autor onde a lira se desdobra em fogosa floração ascensional –, a este coube enriquecê-lo Carlos Aurélio. Artista dos mais completos, com notável obra plástica, designadamente no desenho, pintura, escultura e fotografia, também cultiva com mestria as artes da palavra. Além dos textos dispersos, designadamente nos Teoremas de Filosofia, publicou dois volumes de índole reflexiva – Mapa Metafísico da Europa, Fundação Lusíada, Lisboa, 2003, e Considerando os Filósofos, Tartaruga, Chaves, 2008 – tendo pronto para o prelo o terceiro – Cartas de Noé para Nayma.
O Pastor de Estrelas, pela força do verbo, tem a magia poética capaz de se animar de vida própria ao calor de cada leitura compreensiva. Assim às imagens criadas por Avelino de Sousa perfeitamente se casam as de Carlos Aurélio, traçadas entre a terra e o céu, sinal da comum frequência daquele mundo de que os sonhos são feitos. Pela graça geradora e regeneradora do espírito se afirmam as novas gerações, de quem fiamos o nosso futuro, certos de que a cadeia sem fim que tudo liga e religa se movimenta teleologicamente.
[ Pastor de Estrelas, de Avelino de Sousa: pedidos para serradossa@aeiou.pt]

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