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domingo, 8 de novembro de 2009

O CAMINHO DO CAMINHO, 9

Cynthia Guimarães Taveira




A Casa
Havia uma casa de pedra no meio do caminho. Erguia-se na noite da serra de Sintra. Sentavam-se num banco em frente conversando durante muitas noites. Conversavam sobre tudo. Viagens, passeios simples sem aviões pelo meio, memórias, opiniões e, sobretudo, como acto natural, sobre a tentativa de descobrir a verdade das coisas. A filosofia não requeria sistemas porque ela era a da mais antiga espécie. Um diálogo entre amigos. Digo eu uma coisa, dizes tu outra, mais uma pedra no edifício, mais uma memória que nos forma. Mais um riso, mais um suspiro. Caminhavam com as palavras. Nesse banco, no breu de Sintra, de vez em quando paravam. Olhavam o recorte da casa indistinta:
- Eras capaz de passar aqui a noite?
- Acho que está assombrada, mas acho que sim.
- Uma noite de vigília?
- Aqui só podia ser uma noite de vigília, nem que fosse pelo pânico!
E riam-se dos mistérios de Sintra e da estranha capacidade que essa serra tinha de os acolher. Sintra não era como os outros sítios. Tinha humores, e vozes, brilhos súbitos, labirintos escuros. Nunca havia um dia igual ao outro, como se a serra se renovasse e tivesse fases iguais à da lua. Imaginavam-na como uma grande dama, enorme no seu corpo de árvores, riachos e flores, coroada de rochas, envolta num véu de nevoeiro, ora ocultando-se ora revelando-se. A morte não morava ali, porque nada era estático. Uma brisa que passava era uma mensagem cifrada. Sabiam que havia algures um coração na serra, escondido, palpitando, inquieto. Talvez no seu interior, talvez no seu exterior. Havia mistérios ali, maravilhosos, tenebrosos alguns…
A serra parecia já os conhecer enquanto o contrário nunca seria verdade. Falavam em frente à casa e pensavam que talvez se tratasse de um hotel antigo desabitado. Nada sabiam dela mas, no fim dos seus passeios iniciados ao pôr-do-sol, acabavam sempre ali. O que eles não sabiam era que a casa os escutava. Ouvia as conversas, sorria. Sábia, a casa.
Anos mais tarde, voltaram à luz do dia, desta vez sabendo através de uma revista que a mansão era filosofal, e que todas as suas estranhas esculturas tinham um significado, e que a casa falava sem palavras. Olhavam-na já com outros olhos. O temor dera lugar à curiosidade. Era uma casa aparentemente surrealista, desconexa. Esculpida toda ela, com labirintos e jardins, com fontes e lagos, pedras por todos os caminhos, sinais indicando sentidos vários. Era uma casa improvável porque era o contrário do que uma casa deveria ser. A casa era, afinal, uma viagem. Não era estática. Todos os passos levavam ao encontro de novas paisagens, novos ângulos, novos pontos de vista. Não se estava naquela casa. Ia-se naquela casa. E o mais estranho é que, depois de a terem percorrido, a casa ia com eles, para onde quer que eles fossem, pela vida fora. A casa aparecia-lhes nos bancos da escola onde aprendiam lições gastas, nas ruas de Lisboa, nas escolhas que faziam. A sua presença fazia-se sentir nos sinais, pequeninos sinais, que subitamente se transformavam em autênticos símbolos. Atentavam neles numa atitude religiosa. O mundo era um símbolo inteiro, a casa apenas um microcosmos reflectindo esse imenso mundo. E ouvia os filósofos que dialogavam uns com os outros e, ao ouvi-los, comovia-se e, não os conseguindo largar mais, segurava-os, escutando todas as conversas, incitando-os ao caminho. O mundo irrompia com flores, e os passos tornavam-se uma dança. Com voltas e cornucópias, luas discretas iluminando as noites. E a vida nunca seria mais a mesma para eles. Até ao fim a casa estaria com eles.
No caminho do caminho aprendera que um milagre faz mais sentido do que a cura por um xarope. A panaceia universal estendia-se numa aparente falta de sentido. E tudo tinha sido virado de pernas para o ar. O verdadeiro surrealismo estava no mundo triste que aparentava ter um sentido e era onde não havia sentido nenhum que se podia encontrar o sentido de todas as coisas. A casa entrava com vénias e sorrisos por todo o lado. Nos sonhos onde os bonecos amigos da Alice, no seu país das maravilhas, boiavam em pias baptismais que ficavam dentro da casa. Os cortinados escarlate, pesados de veludo, ocultavam rostos e conversas do outro lado e no pátio de terra batida o então dono da casa preparava uma obra de caridade. Nada fazia sentido, aparentemente, mas nos sonhos esses símbolos vivos faziam parte de uma outra lógica de uma outra ordem de ideias. A imensa capacidade criativa contida explodia em alegria e verdade. Só o mundo sem milagres permanecia mudo e sem sentido. Qualquer símbolo, por mais pequeninito que fosse, parecia fazer mais ondas dentro deles do que uma aula inteira de matemática.
Uma gota de água que caísse de um céu sem nuvens era mais verdadeira do que uma enxurrada vinda de nuvens carregadas. O fenómeno, o irreal, o surpreendente faziam parte desse mundo paralelo que parecia conhecer de antemão as causas e efeitos, trocando-lhes a ordem. O improvável era a coisa mais provável do mundo. E a prova estava no fundo dos seus olhos que haviam adquirido um brilho único, e notava-se neles a existência de uma alma desperta, ao contrário de outros olhos que com eles se cruzavam, desalmados, aprisionados na procura de um sentido onde não havia sentido nenhum.
Anos mais tarde visitaram a casa, de novo. E não a estranharam tanto. Pareciam adivinhar a saída dos labirintos com naturalidade. Talvez começassem, por fim, a conhecer a casa… A passo e passo. Afinal a casa tinha entrado nas suas conversas filosóficas, estava-lhes no sangue. Por isso, e apenas por isso era uma verdadeira casa filosofal. Porque se cruzava e enrodilhava com a própria vida.

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