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sexta-feira, 9 de abril de 2010

FREI AGOSTINHO E A ARRÁBIDA, 3*



Mas que em Fr. Agostinho, ainda para além do seu franciscanismo estrutural, no cerne de sua teologia e mística, se possa ver uma longínqua influência do neoplatonismo, comum a toda a origem da mística ocidental, uma recorrência ou convergência, duma mesma tipologia, será possibilitada pelo paralelismo entre os três aspectos de Deus, como Incondicionado Absoluto, Logos e Alma do Mundo, própria dessa filosofia; e a que estará no fundo de sua poesia mística. A Alma do Mundo, que é também Absoluto, é aqui representada no seu catolicismo, ortodoxamente pela Nossa Senhora, num esquema teológico onde actua com o Pai, Filho e Espírito Santo. Ligando-se o infinito ao finito através da figura sagrada da Virgem, aqui particularmente exaltada, e não através de diversos graus de emanação; se ousará dizer que o neoplatonismo, e mesmo o gnosticismo, foi substituído pelo catolicismo de feição franciscana, o pensamento português tendo eleito este, que vê na criatura semelhança ou imagem de Deus: e a Deus conduzindo; e na Virgem, a mediadora entre Deus e os homens, entre Deus e a Natureza. Pois será pela Virgem que esta união derradeira do transcendente e do imanente, característica da espiritualidade portuguesa, se estabelece em termos teológicos, e ainda místicos. A Natureza natural passando a Natureza divinizada, por graça: assim como o próprio poeta místico, pela purgação e iluminação através da terra portuguesa, topograficamente marcada, indo do norte a sul, passou pela graça, de homem natural a homem espiritual. Se aqui, o cargo desta sublimação duma natureza natural, seria incumbido eleitamente à Nossa Senhora da Assunção, na Arrábida, mais tarde, quatro séculos depois, no Porto, a redenção dessa natureza seria dada completar-se pelo homem, tal como o anunciou, fora, ou contra esses tempos de agnosticismo e positivismo, um filósofo, Bruno: como atingimento da perfeita harmonia perdida, na total abolição do Mal, ou atingimento do homogéneo. Esse sistema antropocósmico, seria ainda como a representação moderna, do cerne de toda a problemática espiritual portuguesa de todos os tempos; e aqui, tanto no franciscano eremita da Arrábida, como no filósofo portuense do Bonjardim, um mesmo carácter místico e teológico haverá no fundo de suas obras: como relação de semelhança entre o macrocosmos e o microcosmos, o divino e o humano, possibilitando a redenção: dois opostos que assim se influenciam mutuamente, em interacção possível.
Depois desta peregrinação penitencial, nesta serra, como lugar-limite, se realizará essa regeneração do homem e da natureza, assumida por um franciscano português, como reapossessão do ser e estar paradisíaco. Longo processo, desde a via purgativa, através da contemplativa, até às portas da unitiva, como pureza primordial e final.
Mas a força, ou matriz donde tudo nasce, primeiro e último passo da salvação, como amor e liberdade total, virá sempre da saudade. «Nasci para lavrar na terra alheia / Terra de maldição, de Deus maldita / De cardos, e de espinhos sempre cheia (…) Mas pois a verdadeira liberdade / Depende de trazer o pensamento / Aceso na divina saudade; / De tudo o que me for impedimento / Para poder lograr bem tamanho / Determino fazer apartamento» (Écloga VI).
Que o eremita se sentiu aqui perante Deus, responsável da salvação dos homens e da natureza, assumindo um serviço no seu mais alto sentido, o dirão estes versos. Serviço humano, sacrificial, de redenção cósmica, em que o eremita será só um puro instrumento terrestre nas mãos de Deus e seus desígnios: agindo sem agir, querendo sem querer, pela acção a mais perfeita, que é o mais perfeito abandono da vontade, como obediência, porque seu ser já então consumado, está coincidente com o ser divino: e é este, só este, que nele age e quer: «Ele lavra, ele rega, ele semeia / Eu colho quando quero a sementeira.» Influxo, acção e aceitação da graça, por graça, no homem: ao que também se poderá aqui chamar a confissão de Fr. Agostinho da Cruz do seu antipelagianismo, como uma das recorrentes, e sempre actuantes, recusas da terra lusitana.

Arrábida, serra alta e última da Europa e Ásia, sobre o Mar Atlântico debruçada: lugar eleito para a ascese de transmutação terrestre e humana, levando-os desde a esterilidade dos cardos e espinhos, até às alvas flores da glória. E ascese que será feita aqui nesta serra, como em reflexo das imagens paradigmáticas que no seu convento estão colocadas às entradas de seus sucessivos pátios e na sua porta principal: eram elas que outrora acolhiam os frades capuchinhos e agiam sobre sua alma; e que agora ainda estão perante nossos olhos desatentos: S. Pedro de Alcântara, Santa Maria Madalena e S. Francisco, ou o monge de S. Francisco.
Sucessivos pátios e uma porta que por si, um a um, marcariam nesse convento, como outros tantos ritos de passagem ou metamorfose, cada qual com sua imagem condutora. Porque, todo o convento é construído sob o esquema do labirinto, para uma iniciação ou santidade: ambos caminhos visando a um mesmo fim. Contínuo e descontínuo, cortado por passagens abruptas, ele se irá suavemente abrindo e recusando à penetração de nossos passos: lenta e sincopadamente, sua estrutura ou espaço será, não homogéneo, mas heterogéneo, cortado por várias suspensões, tal a realidade do mundo e da alma: passagens abruptas, marcando como as necessárias e sucessivas iluminações, ou tentações, porque tem de passar a alma do iniciado ou santo, como suas provas, para atingir a suprema sabedoria, a do amor.
E neste percurso, sucessivos espaços, trechos, serão construídos, ora às claras, a céu aberto, ora na sombra, em subterrâneos. Num deles, estará um azulejo com a imagem de Fr. Agostinho da Cruz, no seu capucho agudo em bico de pássaro e seu semblante de sorriso fagueiro, tal o que possuiu na sua vida terrestre neste convento.
Porque todo o convento é construído unidamente, em abraço com a terra. Em comunhão de amor, a serra penetrará todo o convento, estará aí presente entre suas paredes, em rochas vivas, das suas vertentes intocadas, suas plantas diversas surgindo espontâneas em recantos floridos; intrincadamente com sua água, que brota secreta e casta em pequenas fontes e taças ornadas de seixos e conchinhas do mar. Porque aqui ainda, lusiadamente, este labirinto será, não fechado sobre si, mas aberto, porque construído sob o signo da espiral; não fechado, acabado em si, irredutível, mas sobre si, uma e outra vez retornando, sempre novo: dinamicamente de si e por si, inexaurível criando sempre novos ciclos, ou planos superiores de manifestação, como revelações do divino no humano e terrestre. Erguendo-se sobre o abismo do mar, sustentado na vertente da serra, como regaço maternal, sob o céu, face a ele, todo o convento em si concentrará a força da terra e do céu: e será esse nó de energia, fortíssimo, terrível, mas todo em doçura revelado, de que os frades capuchinhos habitando outrora nesse convento teriam partilhado: a que seriam chamados a partilhar, como em apelo de acção e contemplação, presente e actual.
Este convento se mostrando todo como uma concentração da energia espiritual na terra portuguesa, das mais altas. Tal como Alcobaça, Tomar, Sintra, Sagres, Guimarães, Lisboa, Fátima. Um ponto marcado e eleito no seu espaço corpóreo, para uma acção do espírito. E será como concentração dessa energia, aí aceite e usada pelos homens, baixada e doada do céu, que o convento ainda hoje nos surge: e deverá surgir a nossos olhos e corações. E Fr. Agostinho da Cruz, como um dos seus eremitas eleitos para aceitar em si e em si usar e levar até aos limites possíveis do humano, essa energia do divino.

Dalila Pereira da Costa
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* Título da responsabilidade do editor. O presente texto reproduz um excerto (pp. 246-257) de Místicos Portugueses do Século XVI, livro publicado pela autora em 1986, com a chancela da Livraria Chardron de Lello & Irmão – Editores, Porto.

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