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quarta-feira, 29 de julho de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 20

António Carlos Carvalho

Quem tiver tempo e paciência, até mesmo gosto, por blogues sobre livros e leituras, já deve ter percebido que anda por aí muito entusiasmo por uns brinquedos electrónicos que supostamente acabarão por substituir os próprios livros tais como os conhecemos e amamos – feitos de papel e tinta.
Quase todos os dias chegam notícias de novidades nesse sector. A última que me chegou deixou-me simultaneamente divertido e perplexo: a Amazon, maior livraria em linha, tinha descarregado «1984» e «O Triunfo dos Porcos» («Animal Farm»), de George Orwell para não sei quantos dos tais aparelhómetros, os Kindle, antes de perceber que afinal não detinha os direitos para tal operação. Vai daí, não esteve com meias medidas: apagou os descarregamentos nos próprios leitores electrónicos de quem os estava a ler. Os textos foram, pura e simplesmente, destruídos à distância ... Incluindo as notas que os infelizes leitores, quando era caso disso, tinham feito à margem dos tais textos.
No seu túmulo, Orwell deve ter dado uma gargalhada bem anarquista.
E os agentes da PIDE, em gozo de merecida reforma, devem-se estar a lamentar de nunca terem tido tal instrumento ao seu alcance, quando caçavam livros proibidos nas livrarias.
Mas do que os blogues de livros não falam – e é bem mais grave e significativo – é o que vai por aí em matéria de falência ou de dificuldades agravadas das próprias editoras, sem as quais, convém lembrar, não há livros nas livrarias.

Ontem mesmo, em conversa com um editor aflito («Eu só queria vender isto ... Nunca tive problemas de tesouraria e agora estou cheio de dívidas aos bancos porque ninguém me paga», desabafava), fiquei a saber que há duas grandes editoras prestes a fechar portas, um grupo de editoras com atraso de três meses nos pagamentos e um grupo de livrarias (dos poucos que restam) a pagar tudo com letras e com grandes atrasos nos pagamentos aos seus funcionários.
Se isto continuar assim por mais um tempo, palpita-me que vamos ver muito encerramento de editoras e de livrarias com nomes sonantes.
Às vezes penso que nos coube em sorte vivermos numa época em que tudo acaba – uma época de fim, de encerramento de um certo mundo: o nosso.
E então, quem sabe, talvez nos dediquemos a escrever, uns para os outros, novas versões de «O Mundo de Ontem», de Stefan Zweig. Que depois copiaremos à mão e distribuiremos entre os amigos.

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