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domingo, 15 de maio de 2011

EXTRAVAGÂNCIAS, 133












A PRÁTICA DAS PALAVRAS

Cynthia Guimarães Taveira

Primeiro, os monges medievais temiam o seu Deus, temiam a sua punição, a sua justiça-relâmpago e, esse Deus, era como a própria terra: estava no centro do Universo.

Depois, vieram os homens da renascença e disseram: - É o Sol que está no centro do Universo, não a terra, e esse Sol somos nós. O homem é o centro.

Depois veio o papão, e esse papão era tão grande, tão disforme, tão sem-cabeça que o diabo, que havia sido enfraquecido já na Renascença, fugiu. Esse papão é a própria humanidade.

Entrevista de Manuel Luís Goucha a Medina Carreira. Diz o Goucha, depois do discurso confrangedor de Medina:

- Mas então, depois do que me disse, saio daqui sem esperança.

Resposta:

- Mas não saia, Manuel Luís, não saia. Esperança no colectivo não vale a pena ter. Mas tenha esperança no seu percurso individual.

Pois é, pois é, habituámo-nos a uma visão holística de nós próprios: já não nos vemos fora do colectivo, somos nós e as mulheres maltratadas pelos talibãs, somos nós e, ao mesmo tempo, somos as crianças guerrilheiras africanas, nós de barriga cheia mas também a fome assassina, nós e a peste, nós e a guerra, nós e a morte dos outros que vivemos como nossa. Quem precisa de um demónio se os fantasmas reais nos habitam?

É impossível permanecer completamente humano face à dimensão do drama colectivo: almoçamos bem, mas sabemos que há crianças a morrer a cada minuto por não terem almoço; temos um hospital à disposição e, dentro de nós, alguém morre com uma simples infecção; olhamos com ternura os nossos filhos que dormem, mas há um deles, que vive algures dentro do nosso coração-consciência, que pega numa arma e percorre o mato; acordamos de pijama e dirigimo-nos ao duche quente e saboroso e, no nosso interior, alguém tomba com um tiro. É o papão da humanidade que nos percorre como um arrepio permanente. Vivemos arrepiados de terror e, quando o terror é de mais, há um grito em surdina e monocórdico que faz barulho, de tal maneira que nos ensurdece: o grito da justiça. De tanto gritarmos interiormente por justiça já nem ouvimos o próprio grito. E um mundo surdo não se resolve. E assim agonia.

A solução de Medina Carreira é o regresso à selva. Ou isso ou a loucura da impotência. Uma selva de esperança individualista, como a leoa tem esperança numa boa caçada, num bom percurso pela savana, num bom olhar atento e num bom salto sobre a presa, numa boa resolução da sua própria sobrevivência.

A solução está em tornarmo-nos bichos fixados em nós. Desumanizarmo-nos se não queremos enlouquecer. A humanidade não tem salvação, mas nós temos. E até a caridade é um consolo para a alma: fazemos caridade para nos sentirmos bem; desculpabilizamo-nos, assim, da culpa de não sabermos resgatar a humanidade do sofrimento contínuo. Frequentemente se ouve dizer: - Gosto muito mais de dar do que receber. Ou: - Não há nada tão compensador como ajudar o próximo. Ou: - Ganhamos muito mais quando ajudamos do que quando fechamos os olhos e somos indiferentes. A caridade transforma-se num jogo de compensações e a conclusão a que se chega é de um egoísmo retorcido e atroz: afinal somos os grandes vencedores desse estender a mão ao próximo. Há alguns anos, António Alçada Baptista alertava para esse jogo perverso: nas aldeias havia sempre um pobre. Ele era a justificação da caridade das famílias e era mantido pobre para que as famílias pudessem ser consideradas caridosas e assim tivessem um lugar no paraíso celeste. Enquanto existirem maltratados pela vida há céu, enquanto isso existir há esperança. E assim se perde no caminho o sentido de justiça que deveria prevalecer acima do bem e do mal.

Não é em vão que a Bíblia fala num Juízo Final e não num Bem ou Mal Final. Não é a caridade que substitui a Justiça. Daí não conseguirmos separarmo-nos do mundo. Contemos a Justiça dentro de nós como parte integrante da nossa dimensão divina. A Justiça pode conter a caridade ou não. Contemos a Justiça dentro de nós assim como contemos o mundo, e a esperança individual passa sempre pela esperança no outro. Sem ele somos nada e vazios.

A economia a mais também tem os seus perigos. No desespero economicista tornamo-nos individualistas e caridosos. A caridade devia ser substituída pela generosidade.

A generosidade dá e esquece que deu. A caridade não esquece. A generosidade partilha, a caridade é uma falsa partilha, pois quem é caridoso fica sempre a ganhar em termos morais. A pessoa generosa dá até a quem não precisa. A caridade implica carência. A generosidade implica abundância. Nas sociedades tradicionais, as festas eram feitas para esgotar a abundância das colheitas. Nas sociedades modernas pratica-se a caridade para disfarçar a falta de colheitas. A própria natureza sabe ser generosa, mas não sabe ser caridosa.

Há uma diferença pequena entre as duas palavras, mas ela é tudo: é nessa pequena diferença que reside o futuro da humanidade. E então, enfim, entraremos no reino da Justiça.

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