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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



terça-feira, 5 de maio de 2009

O CENTRO DO MUNDO, 2


O lugar onde se não morre
Pedro Martins

Fui dos últimos a conhecer Agostinho da Silva, durante as breves horas vespertinas de uma entrevista que, em Agosto de 1993, o autor de Reflexão à Margem da Literatura Portuguesa concedeu a um mensário do concelho de Sesimbra, em que eu colaborava então. O mérito do escrito cabe, quase por inteiro, ao entrevistado, claro está; e, no remanescente, a António Ladeira, hoje professor de Literatura Portuguesa numa universidade do Texas. Ao tempo, Ladeira concebeu a maior parte das perguntas e, no seu português impecável, reduziu a escrito as respostas de Agostinho, antepondo-lhes um intróito interessante.
Pelo que me diz respeito, as recordações que preservo daquela tarde são vagas e difusas. Lembro-me sobretudo da serenidade do filósofo, do frescor recatado da sala onde nos recebeu, e de um gato lá de casa, que, de quando em vez, se insinuava em assomos de lentidão.
Creio que Agostinho conhecia razoavelmente o director do jornal, que encabeçava a comitiva, mas nada sabia de mim, ou do António Ladeira. Fez, por conseguinte, as necessárias indagações da praxe. Quando lhe revelei que acabara de me formar, atirou de pronto: “– É bom quando a gente se livra disso, do Direito”. Na altura, julguei ter recebido uma carta de alforria. Hoje percebo que o filósofo, naquele momento, se limitou a deixar-me um aviso.
Rafael Monteiro, esse espantoso autodidacta sesimbrense com quem Agostinho privara durante décadas, havia partido alguns meses antes. No decorrer da conversa, o pensador não esqueceu o amigo, como não esqueceu a vila e o castelo de Sesimbra, terra onde tantas vezes se demorara. No mais, expôs algumas das suas ideias fundamentais, então bastante divulgadas junto do grande público, por mor das entrevistas televisivas.
Há poucas semanas, por ocasião do lançamento, na Faculdade de Letras de Lisboa, do terceiro número da revista Nova Águia, dedicado a’O legado de Agostinho da Silva, quinze anos após a sua morte, deu-me para enviar uma mensagem ao Renato Epifânio, perguntando-lhe se acaso teria registo daquela “minha” entrevista. Por a peça ter sido publicada num modesto e obscuro jornal de província, não me ocorreu que pudesse estar a querer ensinar o padre-nosso ao vigário.
A resposta veio pronta, na volta do correio electrónico: aquela entrevista era conhecida, sim, senhor; e era até uma entrevista histórica, pois, tanto quanto se sabia, fora a última que Agostinho concedera. Mais me disse o Renato que o facto singular vinha assinalado no seu livro Perspectivas sobre Agostinho da Silva. Fui conferir o sucesso no exemplar que tinha em casa (na verdade, comprara-o meses antes, em Sesimbra, na Biblioteca Municipal, aquando do lançamento de A Verdade do Amor, de António Telmo). Lá estava uma fotografia reproduzindo a capa do jornal, onde Ladeira fizera manchete com a seguinte frase do filósofo: “A Península Ibérica deveria ser guia do mundo”.
Há coincidências assombrosas, bem o sabemos: o texto de abertura das Congeminações de um Neopitagórico, que António Telmo irá lançar, no próximo sábado, em Sesimbra, tem por mote inaugural esta ideia forte do Professor. E é o mesmo António Telmo que, no texto “Apresentação”, ontem publicado nesta página, nos revela que Agostinho via em Sesimbra um dos inúmeros pontos geográficos onde era possível situar o centro do mundo, com isto significando somente que “o lugar onde se não morre está por toda a parte, por toda a parte onde haja homens que, pensando e imaginando, desceram tão profundamente dentro de si próprios que tocaram aquele ponto do espírito para o qual convergem por infinitos raios as várias esferas que definem a actividade dos outros homens”. Um lugar assim, manda a verdade frisá-lo, é justamente o lugar natural dos doze homens a quem António Telmo se refere nas sequentes, consequentes linhas daquele texto das suas Congeminações.
O Renato Epifânio pediu-me que, no sábado que vem, dissesse algumas palavras durante a apresentação do terceiro número da Nova Águia, a realizar juntamente com o lançamento do livro de António Telmo. Embora Agostinho nos aconselhasse a não fazermos planos para a vida, pois não sabemos que planos a vida tem para nós, sou bem capaz de repetir a história que venho de vos contar. Sei agora, de ciência certa, quão agradado teria o filósofo ficado, se soubesse (e quem sabe se o não soube?) que a sua última entrevista fora concedida a um modesto e obscuro jornal de província, à conversa com gente moça, chegada desse lugar que também fora o seu, desse “lugar onde se não morre”.

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