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segunda-feira, 1 de junho de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 10

António Carlos Carvalho

A Europa está imobilizada na minha rua, a dois quarteirões de distância. É um casarão feio e triste, abandonado, excepto pelos pombos que fazem dele poleiro para descansar e dali iniciarem novas incursões pelo bairro.

Falo do cinema Europa, que já foi casa de espectáculos diversos, palco de concursos televisivos e de programas de variedades, mas que depois fechou e aguarda um destino incerto. Ninguém lhe pega, embora todos reconheçam que a situação é vergonhosa. Um edifício sem destino, sem projecto, sem futuro.

Aqui, em Campo de Ourique, bairro de Lisboa onde convergem e convivem várias gerações, malha de ruas bem desenhadas, à escala humana, ruas sempre cheias de gente, mesmo aos fins de semana e feriados; local onde Gomes Freire de Andrade (um ilustre militar português assassinado vergonhosamente pelos «velhos aliados» ingleses) teve o seu regimento; bairro de onde Machado Santos (outro mártir das intrigas políticas no país dos tais «brandos costumes» que o assassinaram na noite da «Leva da Morte», de 19 para 20 de Outubro de 1921) saiu com um grupo de revoltosos para o episódio da Rotunda, em 5 de Outubro de 1910; bairro onde funcionou a Universidade Popular e em cujo jardim se ergue uma orgulhosa estátua da Maria da Fonte – neste bairro único de Lisboa, o Europa é uma mancha, um sinal da incapacidade para se voltar a dar vida a um espaço.

Cinema Europa: clique na fotografia para a aumentar

Na fachada, onde o nome Europa está inscrito em letras gregas, a Europa não se encontra sentada no dorso do touro Zeus: é uma jovem nua que parece passear com o seu touro numa via láctea de estrelas de pedra.

Quem sabe, talvez um dia destes, nós, os habitantes de Campo de Ourique, erguendo os olhos para a fachada, vamos descobrir que a Europa foi mesmo raptada pelo touro e levada para Oriente, tal como se contava no mito antigo.

E nesse dia talvez alguém se lembre que a Europa foi mesmo levada para Oriente por antigos portugueses que, consciente ou inconscientemente, se identificavam com aquele velho mapa da Europa em que esta aparecia representada como uma princesa ou rainha, de pé, tendo Portugal como cabeça. Creio que foi nesse mapa que Pessoa se inspirou para escrever aquela abertura de «Mensagem»: «A Europa (...) fita, com olhar esfíngico e fatal, / O Ocidente, futuro do passado. // O rosto com que fita é Portugal.»

O touro, esse, inspirou, nas civilizações do Mediterrâneo, a forma da letra A (Alfa ou Alef). Os alfabetos ficaram para sempre marcados por esse animal mítico, terrível, misterioso.

Mas, até que esse dia chegue, para mim, a Europa é apenas um casarão abandonado, habitado por pombos que outrora foram mensageiros.

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