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domingo, 31 de janeiro de 2010

O CAMINHO DO CAMINHO, 13

Cynthia Guimarães Taveira




(dedicado a António Carlos Carvalho)

O equilíbrio instável
Olhava aquela sala de sua casa. Os livros empilhavam-se de uma forma curiosa. Alguns, mais pequenos em baixo, serviam de apoio a outros grandes e pesados. No meio dessas pilhas, por vezes, papeis pequenos, marcadores de livros que não marcavam naquele momento livros, apenas ali estavam repousando, separando o espaço entre dois volumes como uma respiração e muitas notas tiradas dos livros em formato reduzido. Dicionários maiores eram as cúpulas de torres de romances, ensaios e poesias, como se o propósito final fosse o verdadeiro entendimento de todas as palavras. Bastava um brisa, um toque sem querer, um suspiro e essas torres de livros cairiam por terra, espalhando-se em prosas derramadas pelo chão. Os copos de vários formatos, cores e texturas, continham lápis. Cada copo era definido com uma tonalidade: alguns reuniam os lápis roxos, outros encarnados, outros verdes, outros azuis, mas se se olhasse com atenção, cada um deles, numa espécie de equilíbrio instável, continha um lápis de uma outra família de cor, assim, no meio do roxo um ponto azul, assim no meio dele, um ponto caótico, incerto, imperfeito e por isso, um ponto de liberdade, a garantia de que esse equilíbrio, embora instável, nunca seria desfeito... Os quadros, nas paredes, eram compostos de vários estilos: barrocos ocidentais, contemplações orientais, livros rectangulares, imagens de caracteres chineses desdobrando-se em rolos e ainda uma gueixa deitada e soberana repousava acima do sofá, numa espécie de descanso para além das nuvens.
Essa sala era o reflexo vivo de quem por estes caminhos se mete. A qualquer altura um sopro menos perfeito geraria o desequilíbrio e, no entanto, para que ele existisse era necessária alguma instabilidade.
Sabia que, a qualquer momento, o despertar se tornaria num pesadelo inconsciente e que todo o excesso, por mais ínfimo que fosse, despertaria fantasmas interiores indicando o caminho da loucura. Se amava o oriente sabia que ele estaria sempre distante e que não havia apenas um, mas sim várias chinas, vários japões. Sabia que o erro, o desequilíbrio seria tornar o diverso uno por força apenas da sua vontade. E o mesmo com as letras hebraicas que continham o espírito. Sabia que nunca as conheceria todas de uma só vez, que permaneciam sempre sarças ardentes e misteriosas mas impossíveis de tocar no seu todo, e assim era com todos os seus livros, os seu estudos. A qualquer altura o "demais" tornava tudo em "de menos" e esse risco residia exclusivamente na sua alma. O "despertar" nunca era definitivo, era uma chama alimentada por uma paixão refinada a cada instante o sono espreitava por entre cada página, por entre cada voo do pensamento, por entre a rotina diária e o trabalho extra necessário.
O caminho do caminho era tão fino como uma corda por onde saltita um acrobata, e a insegurança, o tremor era afinal a garantia que tudo estava bem porque simplesmente amava e enquanto amasse, era afinal livre.

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