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quarta-feira, 10 de junho de 2009

NO CORAÇÃO DA ARTE, 7

Cynthia Guimarães Taveira




A Loucura de Deus
Místicos e pintores foram criados pelos mesmos anjos. Moldados de saudade, aquecidos pelo fogo criador e insuflados pela criação. Dizem que muitos deles, sem telas ou papéis, desenhavam e pintavam em qualquer coisa: em tampos de mesa, no chão, em toalhas de papel. Dizem que outros, mesmo tendo telas à mão, papeis ou outros suportes, acabavam por pintar as paredes que os rodeavam. Dizem que nesse acto total estavam já loucos. Os pintores enlouquecem porque se sentem perto de Deus, e ninguém aguenta estar muito tempo perto Dele. Acabam por sofrer de tonturas criativas, por vezes, insuperáveis: a tela ou o papel já não têm espaço para suster o impulso criativo. O momento em que enlouquecem é o momento em que percebem que o universo se molda à sua vontade. Que as paredes não têm de ser necessariamente brancas. Que tudo pode mudar conforme o seu gesto. Confusos, já não sabem onde acabam e onde começa Deus. A fina linha que separa a sanidade da loucura está sempre próxima deles. Loucos como místicos pois tocam as franjas do divino e deixam de saber viver como simples mortais. Dizem até que Salvador Dali, já velho, numa cadeira de rodas, disse aos jornalistas: “Eu sou imortal”.

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