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terça-feira, 9 de março de 2010

APONTAMENTOS E REFLEXÕES SOBRE O KYUDO EM PORTUGAL, 1

Luís Paixão

Escrever sobre o Kyudo em Portugal não dispensa referir as circunstâncias excepcionais em que se deu o inicio da sua prática no país e, de certo modo, exprimir o que se passou connosco, comigo e com o Roque Brás de Oliveira (4º Dan graduado no Japão e actual Presidente da Associação Portuguesa de Kyudo), enquanto intervenientes nesses acontecimentos. Não que exista qualquer vislumbre de vaidade da nossa parte, mas porque de certo modo ficamos marcados por vínculos indeléveis que ambos consideramos de uma outra ordem.
No final de 1992 nós fazíamos parte de um circulo de tertúlia no qual os temas presentes eram e são de um modo geral espirituais e filosóficos, mas permeáveis à influência de outros espiritualismos vivos não exclusivamente ocidentais, muito à maneira de um René Guenon, quando enuncia esse propósito como a “busca de uma tradição primordial”. No que tocava aos orientalismos não éramos alheios às obras de Alan Watts e de Karlfield Von Durkheim, em especial o seu livro Hara, e às belíssimas traduções e comentários de Richard Wilhelm no livro de profundo esoterismo que é O Segredo da Flor Dourada e nesse outro, de carácter também operativo, ao qual recorro em momentos difíceis da minha vida para sábio e gratuito aconselhamento: o I Ching.
Entre estas obras e outras sobressaía O Zen na Arte Cavaleiresca do Tiro Com Arco Japonês de Herrigel, relato da aprendizagem de um ocidental na difícil arte do Kyudo. É uma bela narrativa muito bem escrita, com uma elevada intenção poética, mas que nos deixava com o amargo sabor de só ser possível viver aquelas coisas desde que vivêssemos no Japão. Nessa impossibilidade pensámos no tiro com arco ocidental, tendo na altura, e com essa finalidade, procurado um espaço para o praticarmos.
Por um acaso ou coincidência extraordinário, a Leonor, minha mulher, chamou-nos a atenção para uma artigo da revista do jornal Diário de Noticias, no qual se dizia que havia um senhor japonês praticante de Kyudo, de nome Yokokoji, que estava a viver em Sesimbra muito perto da casa do Roque, na Cotovia, e cuja grande ambição era encontrar um local para a prática do kyudo, enquanto gozava o período da reforma em Portugal. O País não é muito grande, mas mesmo assim tem uns largos milhares de quilómetros quadrados e logo havia de ser ali, tão próximo de nós, que o Sr. Yokokoji havia de estar a viver. Depois de serenado o entusiasmo, houve naturalmente o desejo de o conhecer pessoalmente, averiguando a possibilidade de marcarmos um encontro, conscientes de que o modo, ou a forma, de o fazermos não seria da mesma maneira que se procura um fornecedor nas páginas amarelas. Felizmente e também casualmente, a professora de línguas dos meus filhos era também professora de português do Sr. Yokokoji e, tendo conhecimento do mútuo interesse, promoveu um encontro entre nós em Novembro de 1992.
Recordo com muita saudade esses primeiros momentos no café Esperança. Era um homem magro e de estatura elevada em relação à média de altura japonesa, de trato muito afável, jovial, e, atendendo à idade - tinha 64 anos -, transparecia-lhe nos gestos e nas atitudes uma inocência de criança. Após uma primeira troca de impressões algo difícil em virtude da língua - ele “arranhava” o português e nós não sabíamos nada de japonês - ficou combinado que iríamos um outro dia a casa dele para uma conversa mais longa e profunda sobre o assunto.
Fomos recebidos em sua casa pela sua gentil mulher, a Sr.ª Sumiko, numa atmosfera muito japonesa. Descalçámos os sapatos à entrada (na passagem do profano para o sagrado para uns, para não sujar chão da casa para outros) e depois das boas vindas tomámos chá verde japonês com fritos de arroz feitos a propósito na altura, o que nos fez imediatamente sentir no paladar a atmosfera de simplicidade contida que reflecte a cultura japonesa. Logo após estes primeiros momentos de boas vindas foi buscar, para nos mostrar, o arco ”Yumi”, as flechas “Ya”, a luva “KaKe” e o alvo “Mato”. Foi um momento único, a exímia artesania, e os sinais de já terem sido usados, a verdade natural dos materiais: bambu no arco e nas flechas, pele nas luvas - pareciam objectos animados. A luva, sobretudo, que naquele caso reveste apenas os dedos polegar, indicador e médio, impressionou-me pela enorme dimensão do polegar que tem uma protecção em madeira revestido de pele com uma ranhura no lado posterior para prender o fio do arco. No punho da luva, nas costas da mão, uma bela inscrição gravada a roxo ligava o praticante à escola Ogasawara, aquela prestigiada escola de etiqueta e de Kyudo que tem vindo a apoiar, atenta e desinteressadamente, a actividade do grupo em Portugal através de inúmeras ofertas de material ao longo dos últimos 17 anos. Yokokoji mostrou-nos os objectos com uma enorme seriedade e simultaneamente com uma indisfarçável alegria, por finalmente ter encontrado alguém que poderia apreciar uma arte que ele tanto considerava.
Combinámos logo uma sessão de prática num espaço gentilmente cedido numa quinta próximo da Cotovia. A Quinta da Boa Vista ou Quintinha, propriedade da família da Leonor.
(continua)

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