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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

JAIME CORTESÃO, 50 ANOS DEPOIS, 2


“Limitada ao quadro da Península, onde a Reconquista criara o sentimento específico da hombridade, consciência, por vezes feroz, da força e do valor individual; e o catolicismo se tornara por essência uma religião antinómica na guerra secular ao islamismo, a Cavalaria levou até à exacerbação mórbida o ponto de honra e auxiliou a transformar a ortodoxia em intolerância fanática, ambiente eminentemente propício ao florescimento tenebroso da Inquisição e de todas as formas da compressão do pensamento.
“Mas estes males inerentes ao fundo ibérico da raça e à longa duração da Reconquista, tomaram na Espanha propriamente dita forma virulenta; em Portugal, benigna. Ali alcançaram expressão literária genial em Calderon, o poeta da hombridade, levada até ao delírio; ou encarnação política monstruosa em Filipe II, cuja pobre, ainda que funesta tradução em português, não passou da sombria e fanática múmia do cardeal D. Henrique.
“Mas tudo isto não passa do reverso da medalha. Dos defeitos das virtudes. Como instituição europeia, a Cavalaria criou um novo sentido de vida, que punha a honra no serviço, em nome de ideais generosos; deu à mulher um novo e mais nobre lugar na vida, e foi uma escola de superação e humanidade.
“Ao bárbaro europeu que saía da Alta Idade Média, educado no culto orgíaco da força e da tirania; degradado a uma sórdida e violenta animalidade, deu um código de honra; poliu pela cortesia; inspirou o respeito da mulher; e ensinou aos fortes e poderosos a consciência dos deveres para com os fracos e os humildes.
(…)
“Ao contrário do que sucedeu na Espanha, o pendor individualista da Cavalaria não conduziu em Portugal à degeneração anárquica que dividiu e conflagrou a nobreza castelhana ao findar a Idade Média. O escasso quadro geográfico, o reduzido volume social da grei, ameaçada de perto por inimigos turbulentos e poderosos, cerrou os vínculos entre as classes e tornou o amor à independência de individual em nacional. Auxiliando a diferenciação dos sexos, já de si favorecida e exaltada pela Reconquista, e estimulando o lirismo específico do ethos português, veio a impregnar, quer a literatura culta, quer a popular, de fina, delicada e subtil sensibilidade feminina.
“Mas, acima de tudo, a Cavalaria deu ao Português o sentido do serviço social e o desejo contínuo de superação. Foi um apelo supremo às suas energias para servir a grei e a humanidade.”
Jaime Cortesão
in O Humanismo Universalista dos Portugueses, pp. 33-35.

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