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quinta-feira, 16 de julho de 2009

NOS 70 ANOS DE PINHARANDA GOMES, 4

“Sofrimento e Ascese[1]
A ideia sofre no corpo que é, para ela, a ideologia? O corpo da ideia é a palavra no ciclo da linguagem e, a linguagem, é o conjunto de membros da ideologia. Por isso, a ideia sofre na ideologia, como o espírito sofre no corpo do homem. Encontramo-nos dentro de uma casa que fica desajustada. Há muitas moradas, mas a morada do espírito é quase prisão. (…) A ideia sofre tanto no corpo da ideologia, como o espírito sofre no corpo da criatura. Está nela, em viagem, não em evolução, mas a viagem é infindável. Porque anelamos o instante de plenitude ou de vazio, se não for para darmos a viagem por finda?
O sofrimento é, em princípio, uma desarmonia entre o hábito e o habitante. Habitante é o espírito, hábito é o corpo; habitante é a ideia, hábito é a ideologia. Ao que parece, feitos um para o outro, o corpo surge de baixo, enquanto o espírito surge de onde quer que seja. (…) Sofrimento é desarmonia. A ascese ilumina o sofrimento, qual fogo na escura noite. Está longe de se identificar com o milagre, com a alêteia e com o apocalipse. É, apenas, o convite para lá. (…) O sofrimento surge quando, à brisa que vem das águas, o corpo se move para respirar o pneuma e apreender o espírito, esse que queima. (…) O corpo não pode adormecer, sob pena de, dormindo, deixar que o espírito passe, sem o visitar. O ideal seria lograr, em nós, o encantamento da princesa dormente. Veio o príncipe, beijou-a, e a princesa acordou para todo o sempre. O que da princesa nos diferencia é não sermos pura alma, sempre viva e animada (anima) mas impura razão e, a razão, dorme sobre o irracional. (…)
No trânsito do sofrimento para a ascese, o bordão é filosofia. Filosofia que, radicalmente adversa ao funcionalismo profano da história e do humanismo, nem é ciência, nem religião; nem só teologia, nem só cosmologia, nem só antropologia; nem polimento e encanto da chateza eruditiva. Mas filosofia. Amor da sabedoria, impulso. Filosofia que, nas dificuldades da acção, e nos compromissos que a ideologia lhe exige, se manifesta como Boécio (A Consolação da Filosofia) antevia, ou imaginava: «O que incumbe (à filosofia) é abrir o caminho, para que mova a razão à sua vereda, e se dilate na noite mais sombria.» Ah, sim, que a ascese segundo a razão é autenticamente mística e sem mistura. É uma ascese tão dolorosa quanto é dolorosa a dor situada. Surge como um outro sofrimento, insituado, que parece envolver-nos todos, e magoar, com agudas picadas, cada mícron de todo o corpo. Leva-nos a partir de consagrado momento, a evitar toda a espécie de lugares-comuns; a desprezar todas as sugestões da opinião; a estimar a fecunda ignorância, enquanto se desconfia da mais qualificada erudição. Põe-nos diferentes do outro, por vezes, contra o que habita o outro, ou seja, a ascese pela filosofia significa a possibilidade milagrosa de sofrer pelo espírito. A garantia de autenticidade de ascese pela filosofia há-de verificar-se quando o filósofo for assassinado. Quando a sociedade o convidar a desaparecer, por violência sobre o habitáculo corporal. O que assinala como deve estar o filósofo avisado acerca da ciência humana: a ciência humana rejeita a verdade da filosofia. Se a não rejeitar, talvez importe interrogar se o recto caminho estará a ser seguido. A rejeição assume-se em formas diversas: ódio, perseguição ou indiferença e silêncio. Em ambos os casos, a arma da liquidação da filosofia funciona. Ou por assassinato, ou por emparedamento vivo. Cumpre saber que espécie de tratamento a sociedade usará, para, prevenidos e revigorados pela ascese, melhor se afrontar a inquisição final.
A catarse há-de começar pelo princípio, a saber: filosofia não é coisa para ensinar, é culto a iniciar. Uma liturgia da razão, uma ascese da alma, uma teologia do espírito.
O que se torna significativo. Professores de filosofia admitem que ela se encontra na esfera da impreferência do público, acorrente às ciências humanas. O fenómeno denuncia que, sob a crise da filosofia, é a crise de espírito que se anuncia. Tem agora, o filósofo, a vantagem derradeira, qual seja – amar o amor do saber, sem risco de fazer dele um produto de consumo. Que o filósofo não consuma a filosofia. Que a filosofia consuma o filósofo.”
Pinharanda Gomes
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[1] «Do Unir», in Pensamento e Movimento, Porto, Lello & Irmão - Editores, 1974, pp. 170-173.

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