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segunda-feira, 26 de abril de 2010

AFORISMOS, 30

Eduardo Aroso

120 – Em verdade, o Filho do Homem não tinha «onde reclinar a cabeça». Pende também a alma portuguesa, sedenta no sufoco da incompreensão e sangrando na via-sacra da democracia que geneticamente se transmutou na horrenda plutocracia. Eis o sinistro: no cortejo não há oficiante; só o Povo, cabisbaixo, andando e gemendo, cumpre o servilismo de balbuciar a amarga oração de ter de dizer que é português.

A Sopa de Arroios, de Domingos António de Sequeira: clique na imagem para a ampliar

121 – Sair da noite mais longa, olhar claramente pela janela manuelina com olhos de horizonte, fitar o invisível de «todas as maneiras», como verdadeira Pessoa, atento ainda ao toque acariciado do vento, no místico contemplar do azul celeste, aura que nos envolve, e pelo marulhar nocturno escutar a ressonância de todos os tempos: o único salmo de redenção. Será este a dar sentido a toda a acção.

122 – Krísis -Tomando o sentido grego da palavra (distinção, escolha, decisão), entre nós não é só a crise da democracia, mas o epílogo de um ciclo iniciado com o Marquês de Pombal e que agora se esgotou. Ou continuamos a repetir os erros das 3 repúblicas que resolveram mal as crises dos finais da 4ª dinastia, ou nos emancipamos - decidindo de vez - e então começa a verdadeira República Portuguesa. A par do nascer do sol, comemoremos, pois, a liberdade em cada dia do ano, em cada gesto de ser português, o sentido de muitos dias do nosso existir, reclamando, culturalmente, a liberdade de não aceitar que se apague o que foi lentamente escrito no tempo, no nosso emaranhado mas fecundo tempo de ser Portugal. É que a escrita rápida, podendo ser útil, apresenta muitas desvantagens. E o que pensar da nossa geração quando canta aquela passagem do Hino Nacional «O esplendor de Portugal…»? É que podemos ficar com a nota encravada na garganta, a pensar que o esplendor não é o dos últimos tempos!

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