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quarta-feira, 27 de maio de 2009

DA URBE E DO BURGO, 3

Um Homem do Porto

"O vulto de José Sampaio Bruno ia em breve desaparecer quando começou a ser publicado, capítulo por capítulo, no órgão da cultura da Renascença Portuguesa, a decantada A Águia, um singularíssimo estudo que se apresentou sob este asquipático título: Nova Teoria do Sacrifício. Seu autor, Teixeira Rego, andava então pelos seus trinta anos e, apesar da sua vasta erudição, não possuía qualquer título académico ou curriculum universitário. Era um genuíno autodidacta que vivia, meio encolhido, num subúrbio do Porto, para as bandas de Leixões, de todo entregue à família numerosa (que sustentava com umas terras herdadas e úberes das margens do pequeno rio Leça e com o provento de uma ou outra prelecção particular), educando e cuidando da numerosa prole que lhe enchia a casa e vivendo principalmente para a discreta ruminação de algumas centenas de livros exóticos, uns modernos, outros antigos, que lhe atravancavam a sala de trabalho.
Era uma espécie de novo Bruno, pelo volume somático, pelo desleixo da vestimenta e, acima de tudo, pelo insaciável gosto da leitura e do estudo.
Sem qualquer ambição ou sombra de vaidade, acumulava uma estranha cultura esotérica, que ia desde a filosofia à matemática, das línguas mortas à filologia.
Vivia das referidas terras e do ensino liceal. Dava «explicações» de Matemática a rapazes do último ano do liceu, soletrava o Grego e o Sânscrito, ensinava o Alemão, discutia com Carolina Michaëlis pequenos enigmas de etimologia (como o da origem da palavra gonzo), conversava ombro a ombro com o seu vizinho Leonardo Coimbra acerca de alguns problemas de sociologia e religião; ia uma vez ou outra ao Porto, à tertúlia do Lello ou da padaria filosófica do Bonjardim, para ouvir a vozinha fina do volumoso autor da Ideia de Deus –, e nisto vivia, ocupado e sossegado, no seu pesado alheamento de homem reflexivo e bonacheirão.
Politicamente, era um republicano de quatro costados; como tal, incapaz de simpatizar com a menor violência ou acto de intolerância. Nisso se distinguia do seu mestre Bruno, que, como se sabe, a si mesmo, um dia, mais ou menos nestes termos, se definira:
– Nunca almejei ser esteta ou filósofo. O que sempre fui e sou é um sectário, um jacobino.
Como diz o povo, o que está na massa do sangue só com a tumba adormece e acaba. Bruno jamais pudera libertar-se da fracassada jornada de 31 de Janeiro. Até os derradeiros dias sempre o perseguiu o desgosto de que a República só vinte anos depois aparecesse – e não no Porto…
Teixeira Rego, homem de outra cepa, tolerante e benévolo, sorria dos sectarismos e só sonhava uma humanidade em que todos os pecados do homem, incluindo o pecado original, se resolvessem cientificamente, acreditando poder porventura, um dia, obter-se um conjunto de verdades e de condições de vida tão simples, que seriam como que o equivalente ao regresso ao Paraíso.
A sua «teoria do sacrifício», nas suas mais recônditas intenções, era precisamente a expressão dessa ideia-crença.
Enquanto a dois passos da sua casa, o autor do Criacionismo, no seu veemente idealismo cristão, procurava demonstrar que o mal é uma necessidade correlativa do indefinido trabalho de aproximação do que, na escatologia do Cristianismo, se designa por «redenção», e um pouco mais adiante, num casinhoto desse mesmo prolongamento suburbano do Porto, batido nas invernias pelo estrondo lúgubre das vagas de Leixões, outro espírito meditativo, mas soturno, o ascético Basílio Teles, tentava mostrar, pelo aprofundamento do mito de Job que «o mal é um irracional» –, Teixeira Rego vivia absorvido pela sua ideia de que o mal não teria nascido com o primeiro homem ou agregado humano. Tal erro (ou crime), cuja lembrança, sob mil formas mitológicas, se poderia vislumbrar nas mais diversas e afastadas tradições religiosas, teria ocorrido provavelmente em uma fase já relativamente maturada do homem originário. Por um acidente, decerto meramente fortuito, o homem tranquilo e ingenuamente sábio, habituado a uma alimentação exclusivamente radicular e frugívera, teria sido atentado, por um fugitivo capricho ou acesso de demência, a experimentar outro tipo de alimentação: a carnívora. As consequências e os mimetismos suceder-se-iam em cadeia. Aqui e além seria repetido e imitado o acto insólito. Desse modo teria seu fim a Idade de Oiro. Em breve se verificaria no ser humano uma profunda alteração tanto espiritual como orgânica. O homem, até aqui pacífico, faz-se agressivo. O uso moderado da carne, como sustento, repercute-se na alma e no corpo. A procura de outras espécies, algumas possantes e ágeis, requer da criatura humana, até aí inocente, certas qualidades de audácia e astúcia, de crueza e perversidade. Ao fim de algum tempo, o homem parece outro. O seu corpo adquire singulares e imprevistas modificações. A criatura humana, até então, revestida por uma espessa cobertura pilosa, adquire estranha brancura. Faz-se nua. A caça astuciosa e temerária, aos bichos, torna-se-lhe duplamente necessária: pela carne e pela pele que lhe servirá de agasalho e encobrimento da nudez. Uma das repercussões mais dramáticas do novo regime alimentar da espécie humana seriam as dores cruciantes da maternidade. Sem confronto algum com a fêmea de outra espécie, a mulher, a partir do final da Idade da Inocência ou Idade do Oiro, paga em demorados e violentos transes, o erro terrível do primeiro homem carnívoro.
Tal era a intuição matricial do singularíssimo e infortunado Filólogo e Filósofo das Religiões, nado e criado a dois passos do velho burgo, pátria de Bruno."

Sant'Anna Dionísio

(texto integral de “Um Homem do Porto”, capítulo XXXVII de Da Urbe e do Burgo, Lello, 1971, pp. 249 e ss.)

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