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sexta-feira, 5 de junho de 2009

ANOTAÇÕES PESSOAIS, 11

António Carlos Carvalho

Ouvi queixas de que não se tem falado praticamente nada sobre a Europa. Percebe-se facilmente porquê, o assunto não é nada fácil, está envolvido em muitas contradições, falhanços, utopias... e mortes – muitos, mesmo muitos milhões de mortos.
Para os Gregos, ainda hoje, a Europa é uma coisa grega (tal como os Jogos Olímpicos ou a democracia, por exemplo).
Para os que sabem alguma coisa de Grego, de Latim e de História da Antiguidade, a Europa é uma criação de Gregos e de Romanos.
Para os que estudam a História do Cristianismo, a Europa tem uma indesmentível marca cristã (e citam os mosteiros como locais de criação de cultura, por exemplo, ou a importância da Reforma e da Contra-Reforma).
Para os historiadores laicos, a Europa cimentou-se com as ideias da liberdade, igualdade e fraternidade e da separação entre a Igreja e o Estado.
Para outros, a Europa é a criadora da ideia de nação e de destino colectivo; para outros, ainda, foi a Europa que gerou todos os malefícios que depois exportou para outros continentes (colonialismo, escravatura, etc.)
E assim por diante.


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Fora dessas polémicas (e cada uma das referidas acima é altamente controversa), todos percebemos que a Europa é muito diversa em tudo. As diversidades saltam, aliás, à vista. A Europa do Mediterrâneo (onde dizem que ela nasceu realmente) é bem diferente, em tudo, da Europa do Norte; os Eslavos ortodoxos jamais se entenderão com os católicos romanos (ainda que todos se intitulem cristãos); os ingleses sempre olharam para o continente com suspeita ou desejo de domínio; a França ainda não desistiu do predomínio cultural que outrora teve; Portugal e as Espanhas sempre foram um mundo à parte no mapa europeu. Etc., etc. A lista de diferenças e diferendos é interminável.
Mas também foi neste espaço que nasceu a ideia, o conceito de Império. E ainda hoje há quem pense seriamente que a única possibilidade real de união europeia só pode ser realizada através de um Império – basta citar as últimas tentativas, as de Napoleão e de Hitler: é verdade que acabaram muito mal mas arrastaram consigo, voluntariamente, as esperanças de milhões de europeus, que acreditaram sinceramente nelas, e por elas tragicamente lutaram e morreram... Numa outra dimensão, a que o romance, a música e o cinema deram forma, tivemos o Império Austro-Húngaro, que ainda hoje deixa nostálgica muito boa gente (a este respeito não resisto a citar os livros de Claudio Magris, nomeadamente o extraordinário «Danúbio», ed. Dom Quixote, «Le Mythe et l’Empire dans la littérature autrichienne moderne»). Mas a realidade é que tudo isso acabou em 1914-1918 – e por essa razão Stefan Zweig escreveu um livro pungente intitulado «O Mundo de Ontem» e Joseph Roth escreveu um romance exemplar intitulado «A Marcha de Radetzky».
De que Europa então falamos quando dizemos «a Europa»?
E qual é a união europeia que se faz baseada apenas na moeda – o único valor que pode unir gentes, povos, nações, culturas, histórias tão diferentes, por ser realmente o único que eles aceitam como válido e comum...?
Na I e na II Guerras Mundiais, nesses conflitos a que alguns chamaram «guerra civil europeia», o factor decisivo veio da América (que Guénon designava como Extremo Ocidente), que também já tinha tido a sua própria guerra civil. De então para cá, a Europa, à toa, tem vindo a americanizar-se cada vez mais. Hoje, estamos suspensos de qualquer espirro ou adopção de um cão do sr. Obama, e não de qualquer gesto significativo de um «líder» europeu. Por isso há quem fale de «Império americano», o único que restaria e que não estaria previsto na chamada «profecia» de Daniel. E que não é certamente o Quinto Império de António Vieira ou de Menasseh ben Israel.
União europeia? Talvez esteja simbolizada, afinal e apenas, nos soldados desconhecidos dos nossos cemitérios e panteões. Aí sim, eles, europeus, ficaram unidos na morte e no anonimato.
Entretanto, toquem aí uma valsa dos Strauss, por favor... Sempre é preferível do que o pobre Beethoven, que também morreu desiludido.

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