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Leia aqui a homenagem da Fundação António Quadros a António Telmo.



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

ANTÓNIO TELMO, SEMPRE


Em dia de Reis, fica a memória de António Telmo no qual a Ilha e Estrela revelam, afinal de contas, que “o que está em cima é como o que está em baixo”. Texto luminoso e hermético para reflectir vivamente e levar dentro de nós para onde quer que os nossos passos se dirijam.

A Ilha (Por António Telmo)

Como disse aqui ontem o Orlando Vitorino, os Descobrimentos não tiveram por fim a conquista das rotas comerciais, a não ser que nelas vejamos etimologicamente as rodas de Mercúrio, daquele Mercúrio que é, segundo Camões, o Espírito Santo revelando-se a Vasco da Gama. O fim dos Descobrimentos foi, na verdade, o inesperado encontro com a Ilha dos Amores.
É essa mesma Ilha aquela onde reside o Rei.
Numa das notas escritas por Fernando Pessoa sobre o sebastianismo, o poeta impõe a si próprio o seguinte: "É preciso ver o que significa a Ilha”.
Aprendemos na Escola: “Ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados”. Na terminologia dos filósofos uma ilha é um absoluto, o ab-soluto ou então, recordando Leibnitz e Leonardo Coimbra que o segue, uma mónada representativa do Universo. Um ponto de vista que tem, em relação aos pontos de vista a partir dos quais abrangemos um panorama, esta importantíssima diferença: a de o objecto de visão ser produzido pelo próprio que o apreende. Uma estrela é uma ilha cercada de todos os lados pelo infinito, mas é a sua luz que cria a visibilidade. (…)
O mundo encoberto, presente por toda a parte como uma ilha que pode surgir inesperadamente em qualquer ponto do percurso da nossa navegação, não é o mundo vazio da vida dos nossos pobres conceitos. Swedenborg viu-o como uma terra em que os vivos, que são os nossos mortos ou de que nós somos a imagem morta, nascem, crescem, casam-se, viajam, amam e até têm os seu Cafés onde se encontram formando tertúlias de pensamento. “Os Anjos também investigam”, escreveu Leibnitz.
Cada um de nós ao morrer encontra do outro lado de dentro aquilo que se foi formando no seu subconsciente por dejecto, no seu supraconsciente por assunção. Levamos connosco o nosso Inferno e o nosso Paraíso. Só os heróis têm a revelação da Ilha com os seus três outeiros, as suas aves, as suas flores e as águas onde o Amor abre o acesso ao Paraíso, onde a mónada se conhece enquanto mónada na forma de “um globo diáfano e profundo”.

António Telmo, Viagem a Granada, Edições da Fundação Lusíada, 2005, pág. 156

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